TSE manda a Tropa do Flávio apagar vídeo com IA — e o canal já o tinha removido
Decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze atende a pedido da coligação de Lula e aponta deep fake sem rotulagem · 23 de outubro de 2026
1 · A decisão
O ministro do Tribunal Superior Eleitoral Marco Aurélio Bellizze determinou nesta sexta-feira 23 de outubro de 2026 a exclusão de uma postagem do canal de WhatsApp "Tropa do Flávio". A ordem atendeu a um pedido da coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O conteúdo era um vídeo publicado no canal. Nele, a imagem de abertura mostrava um homem de cabelos brancos, de costas e com as mãos cruzadas atrás do corpo, diante de uma bandeira do Brasil cercada de fumaça vermelha, correntes e destroços. A peça associava a figura a Lula e trazia alegações sobre a economia e acusações de corrupção.
Na análise preliminar, Bellizze afirmou ser possível constatar o uso de deep fake no vídeo sem a rotulagem exigida pela legislação. O ministro registrou ainda que a publicação "tem caráter ofensivo e veicula conteúdo desinformativo". A decisão aponta risco de dano por se tratar da reta final da campanha.
2 · O canal, e quem o opera
A "Tropa do Flávio" foi criada em 6 de outubro de 2026, às 21h07, poucos dias depois do primeiro turno, e é registrada como canal oficial de campanha na Justiça Eleitoral. Sua descrição atual convoca os inscritos a ativar as notificações para receber todas as mensagens e anuncia: "Começou o segundo turno".
Entre os administradores está o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG). Além de informações sobre a agenda de campanha e de críticas ao PT e a Lula, Nikolas publica mensagens que orientam os membros do canal a agir de forma coordenada em favor da campanha eleitoral.
O conteúdo em destaque no canal, na noite desta sexta-feira, não é de ataque direto. Trata-se de um vídeo de pouco mais de oito minutos, intitulado "13 ou 22: será que é tudo igual?", cuja legenda sustenta que "nenhum dos dois lados é ideal, e um lado é muito diferente do outro", pede que o eleitor não anule o voto e observa que, "mesmo com todas essas diferenças escancaradas, essa disputa ainda está empatada". A publicação acumulava 7,2 mil curtidas e 20 mil compartilhamentos — o maior volume de compartilhamento visível no canal naquele momento.
É uma peça de convencimento, dirigida a quem está na dúvida, e não de mobilização de militância já convertida. O canal de Lula opera no registro oposto: suas mensagens mais recentes são convocações diretas — "Explode!", "Subam", "A gente tem agora 4 horas apenas pra trazer 300 mil pessoas" — dirigidas a quem já está dentro.
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Canal |
Administração |
Criação |
Inscritos em 22/10, 11h |
Inscritos em 23/10, 19h |
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Tropa do Flávio |
Deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) entre os administradores |
6 de outubro de 2026 |
2.094.574 |
2.120.808 |
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Exército do Lula |
Deputado André Janones (Rede-MG) |
15 de abril de 2026 |
8.002.710 |
10.196.057 |
Os dois são registrados oficialmente, e os dois funcionam da mesma maneira: deputados federais coordenando mobilização em massa pelo WhatsApp. A diferença está na escala — e ela cresceu. Entre a manhã de 22 e a noite de 23 de outubro, o canal de Lula ganhou cerca de 2,2 milhões de seguidores, enquanto o de Flávio avançou 26 mil no mesmo período. A proporção passou de cerca de quatro para quase cinco seguidores do "Exército do Lula" para cada um da "Tropa do Flávio".
O salto do canal de Lula concentrou-se na tarde desta sexta-feira, quando ele fixou no topo a mensagem de que só reabriria ao atingir 10 milhões de membros e passou a publicar convocações em sequência até bater a marca, por volta das 17h50.
Os dois canais são públicos, e o conteúdo de ambos pode ser conferido por qualquer usuário do WhatsApp nos endereços informados pelos próprios canais:
Tropa do Flávio: https://whatsapp.com/channel/0029Vb8kT6E3AzNNDpBkN22J
Exército do Lula: https://whatsapp.com/channel/0029VbCbRfD7tkj88k3soZ0Y
3 · A convocação para a fiscalização de urna
No mesmo dia em que a decisão do TSE foi tomada, a "Tropa do Flávio" publicou uma nova convocação: o cadastro de apoiadores para atuar como fiscais de urna no segundo turno, marcado para domingo, 25 de outubro.
A mensagem pede engajamento e distribui as instruções em três passos:
1 – Se cadastre e seja um Fiscal de Urna
2 – Compartilhe esse link nos seus grupos e redes sociais pedindo que as pessoas façam o mesmo
3 – Nesse domingo fique no local da votação até que as urnas sejam guardadas e o boletim de urna seja impresso e exposto
"É muito importante que todos da TROPA DO FLÁVIO se engajem ao máximo agora nessa missão", diz a mensagem.
O terceiro passo merece atenção por si. A fiscalização de urna é um direito previsto na legislação eleitoral, exercido por partidos e coligações. A orientação para permanecer no local até a impressão e a exposição do boletim de urna descreve um procedimento de acompanhamento da apuração — e a novidade aqui é que ele seja distribuído por um canal de WhatsApp a apoiadores inscritos, com pedido de replicação em grupos e redes.
4 · O que se decidiu, e o que não se decidiu
A matéria não afirma que o canal vá ser suspenso ou retirado do ar. A decisão de Bellizze atinge uma publicação específica, e não o canal. É importante distinguir as duas coisas, sobretudo em razão do que ocorre do outro lado da disputa.
Sobre o "Exército do Lula", o que existe não é ordem de retirada cumprida, e sim uma disputa judicial em curso: o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou suspensões por via administrativa em duas ocasiões — uma delas revertida no mesmo dia pelo corregedor-geral eleitoral — e uma liminar concedida pelo ministro Floriano de Azevedo Marques passou a impedir novas suspensões por essa via até decisão do plenário. Há também um abaixo-assinado contrário àquela decisão que reunia mais de 155 mil adesões.
Os dois casos, portanto, não são simétricos no que enfrentam. A simetria está nos métodos — dois canais, dois deputados, dois públicos mobilizados por WhatsApp — e não no tratamento judicial, que até aqui seguiu caminhos distintos: uma publicação removida de um lado, e uma discussão sobre a própria possibilidade de suspensão do outro.
Nota metodológica
Este texto se baseia em reportagens do UOL publicadas em 22 de outubro de 2026 sobre os dois canais de campanha, em reportagens do Poder360, do CartaCapital, da CNN Brasil e da Veja publicadas em 23 de outubro de 2026 sobre a decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze e sobre a convocação de fiscais de urna. As descrições do vídeo, da fundamentação da decisão e das mensagens publicadas no canal estão reproduzidas conforme registradas pelas fontes consultadas. Os números de inscritos correspondem à contagem do UOL às 11h de 22 de outubro e variam ao longo do dia. A informação de que o vídeo já havia sido removido pelo próprio canal é referida conforme noticiada.