Bispos católicos, a carta do segundo turno e o que cada lado escolheu repetir
Igreja Católica · Segundo turno
Um documento religioso, sua recepção e o silêncio da CNBB — três dias antes da votação · 23 de outubro de 2026
1 · O que aconteceu
Na quinta-feira 22 de outubro de 2026, a três dias do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de bispos católicos de dioceses de todo o Brasil tornou pública uma carta dirigida ao "Povo de Deus". O documento pede que os eleitores católicos decidam o voto à luz da Doutrina Social da Igreja (DSI) e sustenta que uma das duas candidaturas em disputa entra em contradição frontal com esses ensinamentos.
O texto não menciona nominalmente nenhum dos dois candidatos. A ausência de nomes é escolha redacional do próprio documento, e não omissão de apuração: os signatários descrevem uma das candidaturas com precisão suficiente para que o leitor identifique de quem se trata. A carta fala do "Governo de seu pai", de um candidato que "é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia" e de homenagens familiares ao general Brilhante Ustra. A votação está marcada para domingo 25 de outubro.
O título completo é "Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026", e o documento é datado de 22 de outubro de 2026.
2 · Os assinantes, e o que esse número significa
A contagem de signatários é o primeiro ponto de atenção do episódio, porque as fontes não coincidem. O arquivo original da carta que circulou publicamente é a versão identificada como V6, gerada em Word no dia 23 de outubro de 2026 — traz uma lista nominal de 52 assinaturas. A reportagem do g1 sobre o mesmo documento fala em 47 bispos de 19 estados. Já uma versão em texto que circulou nas redes e em alguns veículos atribuiu 64 signatários a 21 estados, número que não corresponde a nenhuma das fontes primárias disponíveis.
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Fonte |
Nomes |
Estados |
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Arquivo da carta (versão V6) |
52 |
não informado |
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Reportagem do g1 |
47 |
19 |
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Versão em texto |
64 |
21 |
Há também diferença nominal entre as listas: o arquivo original registra nomes que não aparecem na relação publicada pelo g1, como Dom Erwin Kräutler, Dom Guilherme Werlang, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, Dom José Aristeu Vieira, Dom Manoel Ferreira dos Santos Junior e Dom Moacir Aparecido de Freitas. Isso sugere que a reportagem publicou uma relação parcial ou que a lista cresceu entre a divulgação e a publicação. A versão do arquivo original é a mais completa e a mais autoritativa das disponíveis.
Há uma explicação documental para essas divergências, e ela importa mais do que a discrepância em si: a carta é um documento em coleta aberta de adesões. Junto com o texto circula um formulário intitulado "Adesão à Carta de Bispos Católicos sobre 2º Turno das Eleições Gerais 2026", com prazo declarado até 24 de outubro — véspera da votação. O próprio formulário informa que o signatário receberá depois "a versão final da Nota" para divulgação. A lista de nomes, portanto, está em formação, e qualquer contagem publicada hoje é um retrato de um instante, não o total. O número pode aumentar até o encerramento do prazo, e o número final só se fecha depois disso.
Seja qual for a contagem adotada, o dado essencial é o mesmo: trata-se de uma minoria do episcopado brasileiro. Segundo números divulgados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em outubro de 2026, o país tem 498 bispos, dos quais 325 estão em atividade e 173 são eméritos. Sobre esse total, 52 signatários representam aproximadamente 10,4 por cento; 47 representam cerca de 9,4 por cento. A proporção de 12,9 por cento que apareceu em versões que circulavam em texto partia do número de 64 e não se sustenta sobre as fontes primárias.
3 · Os cinco eixos da crítica
A carta organiza seus argumentos citando documentos do magistério eclesiástico e contrapondo cada um deles a "uma das candidaturas". São cinco frentes, e cada uma se apoia em uma referência doutrinária explícita.
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Eixo |
Referência |
Argumento contra a candidatura |
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Trabalho |
Magnifica Humanitas, 37 |
Atribui à candidatura oposição ao fim da escala 6x1 e a proposta de pagamento por hora trabalhada |
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Soberania nacional |
Magnifica Humanitas, 64 |
Fala em submissão aos Estados Unidos, participação em conspiração para taxar produtos brasileiros, defesa de intervenção estrangeira e entrega de terras raras à exploração americana |
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Pobres |
Dilexi Te, 114 |
Afirma que o partido de um dos candidatos sempre foi contrário a programas sociais e de combate à pobreza |
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Desarmamento |
Compêndio da DSI, 508 |
Diz que um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, "como fez o seu pai em seu Governo" |
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Ecologia integral |
Laudato si', 14 |
Acusa de negar a crise climática e de querer dar continuidade às "políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai", citando a Lei nº 15.190/2025 |
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Rejeição à tortura |
Compêndio da DSI, 404 |
Afirma que um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e menciona homenagens da família dele ao general Brilhante Ustra |
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Democracia |
Centesimus Annus, 46 |
Diz que um dos candidatos é filho do presidente condenado por atentar contra a democracia, fez declarações de ameaça à ordem constitucional e governaria com maioria no Congresso |
O documento abre com o versículo de Amós — "O Senhor Deus falou, quem não profetizará?" — e cita a encíclica Magnifica Humanitas, atribuída ao papa Leão XIV, para justificar a tomada de posição: "Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar 'não ser cúmplice'". Encerra com invocação a Nossa Senhora Aparecida.
4 · A candidatura que não é criticada, mas também não é abraçada
Um dos traços mais notáveis do texto é o trecho em que os signatários reconhecem existir duas candidaturas e não deixam a segunda livre de ressalvas — mas estabelecem entre elas uma assimetria declarada. O documento diz que a outra candidatura "embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição".
A frase seguinte resume a tese: "Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja". Não há, portanto, endosso entusiástico a nenhum nome. Há uma gradação de gravidade, na qual uma candidatura é considerada incompatível com a doutrina social da Igreja e a outra, criticável mas tolerável em comparação.
O tom histórico é explícito. O texto afirma que a eleição pode representar "a possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças", e conclui: "Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes". Em vídeo sobre a manifestação, Dom Luiz Fernando Lisboa, arcebispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, reforçou o sentido de urgência: "Neste momento, não cabe hesitação. Precisamos tomar posição em nome do Santo Evangelho e da doutrina social da Igreja".
5 · A recepção: três enquadramentos do mesmo documento
A carta circulou por veículos de perfis distintos, e a comparação entre as coberturas é, por si só, informativa. O mesmo documento foi lido de três formas diferentes, e as diferenças estão menos no que cada veículo acrescentou do que no que cada um escolheu não repetir.
O g1 publicou uma reportagem factual, com foco no conteúdo do documento e na lista de signatários, e registrou que a CNBB não havia respondido até o fechamento. A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que divulgou a íntegra da carta em seu site, publicou uma nota de repercussão que a enquadra como uma defesa da democracia, da justiça social e do cuidado com a Casa Comum, destacando a Ecologia Integral e a presença de bispos de territórios amazônicos. A nota não reproduz nenhuma das passagens mais duras do documento — as referências ao "Governo de seu pai", à "Lei da Devastação", à tortura, ao general Ustra ou à "usurpação do poder". É uma cobertura que lê a carta pelo ângulo socioambiental e deixa o confronto político direto fora do seu resumo.
A Le Monde Diplomatique Brasil publicou, em 8 de outubro, duas semanas antes da carta, um artigo de análise assinado por Estevão Bosco, sob o subtítulo "O equilíbrio entre os Poderes estará nas mãos dos conservadores". É um texto de opinião declarada — o autor escreve em nome de um campo político, encerrando com a pergunta "O que fazer?" dirigida a "nós, democratas" — e não apuração. Seu argumento parte do livro Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, para sustentar que o risco não é um golpe súbito, mas erosão gradual conduzida pelos próprios eleitos.
Vale registrar, por honestidade com o material, um dado aritmético que o artigo da Diplomatique oferece e que é verificável: segundo o autor, faltariam 4 votos no Senado e 56 na Câmara para que a direita e a extrema direita alcançassem o quórum de 2/3 nas duas Casas, estando a maioria de 3/5 já assegurada no Senado. O artigo remete a um gráfico que acompanha o texto original, que não integra este material e seria melhor conferido na fonte. Da mesma forma, outras passagens do artigo são interpretação e não declaração — o próprio autor marca como suposição a avaliação de que o candidato buscaria prolongar-se no poder, dizendo que raciocina "pelos autos, não pelas falas".
Por fim, um detalhe de precisão que merece cuidado em qualquer texto que cite os documentos: a nota da REPAM atribui a encíclica Laudato si' ao papa Francisco, enquanto a carta cita Magnifica Humanitas como encíclica do papa Leão XIV. Os dois documentos pertencem a pontificados diferentes, e as atribuições não devem ser misturadas.
6 · O que a CNBB disse — e o que não disse
Não há registro de resposta institucional da CNBB à carta. Procurada pelo g1, a Conferência não havia respondido até a publicação da reportagem, e não se localizou nota, repúdio ou posicionamento oficial da entidade sobre o manifesto específico dos bispos. A manifestação oficial conhecida é outra, anterior em um dia e mais genérica: a mensagem do Conselho Permanente ao povo brasileiro divulgada em 21 de outubro, intitulada internamente "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça" (Mt 6,33).
É importante não confundir documentos e cronologia. A mensagem de 21 de outubro não foi uma reação à carta, que só seria divulgada em 22 de outubro. Tampouco a CNBB declarou publicamente que o manifesto seria iniciativa independente de bispos, alheia à posição institucional — essa leitura é plausível como conduta da Conferência, mas não há declaração nesse sentido que possa ser atribuída a ela. O registro documental é o silêncio sobre a carta e uma mensagem própria, divulgada antes dela.
Essa mensagem "reafirma a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam" e "encoraja a participação consciente de todos neste segundo turno das eleições". É uma nota que defende instituições e o voto sem tomar partido entre candidaturas e sem endossar os termos específicos da carta dos bispos. A carta, por sua vez, declara-se alinhada a essa mensagem — mas vai bastante além dela em especificidade e em carga política.
A diferença entre os dois textos é o eixo mais revelador do episódio: uma manifestação institucional que preserva a neutralidade entre candidaturas e uma manifestação de bispos individualmente que a abandona, ainda que sem nomear quem critica.
Nota metodológica
Este texto se baseia na íntegra da carta, na reportagem do g1 sobre o documento, na nota de repercussão da REPAM e no artigo de análise da Le Monde Diplomatique Brasil, com autoria, veículo e data identificados em cada caso. O artigo da Diplomatique é peça de opinião e está reportado aqui como tal. Os números de signatários e a composição da lista variam conforme a fonte, e as divergências estão explicitadas no corpo do texto em vez de resolvidas por escolha silenciosa.