Nove dedos, miliciano e muitos números: o que ficou do último debate
Lula e Flávio Bolsonaro discutiram propostas por três horas, trocaram ofensas e apresentaram dados que as agências de checagem começaram a verificar durante a própria transmissão · 24 de outubro de 2026
1 · O que aconteceu
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se encontraram na noite desta sexta-feira 23 de outubro, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, no último debate antes do segundo turno. Foram cerca de três horas, mediadas pelo jornalista César Tralli, em quatro blocos — três com temas definidos e um livre.
O encontro teve dois programas dentro dele. No primeiro, os candidatos discutiram salário mínimo, aposentadorias, endividamento das famílias, dívida pública, juros, SUS, saneamento, infraestrutura e exportações, com mais espaço para propostas do que no confronto da Band, cinco dias antes. No segundo, os ataques pessoais voltaram — e foram eles que deram ao debate as frases que circularam na manhã seguinte.
A votação é neste domingo, 25 de outubro, com a disputa dentro da margem de erro. O Datafolha divulgado em 22 de outubro registra Flávio com 47 por cento e Lula com 46.
2 · O que deu proveito
Das três horas de programa, uma parte produziu conteúdo verificável — e é essa parte que sustenta a leitura do debate como um confronto de projetos.
Os dois candidatos escolheram, entre os dez temas exibidos no telão, o que queriam discutir. A escolha revelou prioridades: Flávio foi para dívida pública, custo de vida e endividamento das famílias; Lula levou o debate para o que foi feito em seus governos, insistindo na diferença entre executar e prometer.
Houve uma sequência de números apresentados de parte a parte. Flávio citou 11,5 mil obras paralisadas e 21,3 mil pontos de internet instalados; Lula citou 6 mil obras herdadas paradas e 5,6 mil creches e escolas inacabadas. Nenhum dos números escapou: as quatro agências de checagem que acompanharam o programa em tempo real verificaram cada um deles, e os resultados estão no material de apuração publicado em separado.
Houve também um momento que o debate ofereceu e que raramente aparece em campanha: Flávio reconheceu, ao ser questionado, ter votado contra a ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual no Rio de Janeiro — e disse que mudou de posição. Lula cobrou o voto e o adversário não o negou.
E houve a exposição de agenda: Flávio disse que manterá o Pé-de-Meia e o Bolsa Família caso eleito, e apresentou vale-creche, cursos de tecnologia e parcerias entre rede pública e privada. Lula defendeu as políticas sociais de seus governos e o programa Desenrola. Um eleitor que assistiu ao programa inteiro saiu com mais informação sobre o que cada um pretende fazer do que sobre quem é quem.
3 · O que não deu
A outra parte do debate foi de troca de acusações, e é dela que se lembra hoje.
Nove dedos
No primeiro bloco, discutindo salário mínimo e tarifa zero nos ônibus, Flávio disse que "não adianta nada o salário mínimo estar em 1.621 reais se você dá com uma mão e tira com os nove dedos". A referência é ao dedo que Lula perdeu em 1964, aos 17 anos, como torneiro mecânico. Lula reagiu indignado no mesmo bloco: "Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa." Flávio se desculpou depois.
O episódio custou ao senador mais do que o momento de provocação rendeu. Não por acaso, o tema migrou do debate para as horas seguintes, e a desculpa entrou na avaliação de desempenho de boa parte da imprensa.
Miliciano
Nas considerações finais, Lula chamou Flávio de miliciano. É uma acusação que o presidente já havia usado antes, e que no palco ficou sem resposta — mas que também não é verificável como afirmação factual: trata-se de qualificação política, e as agências de checagem a tratam no terreno da disputa, não da verificação.
A acusação que virou caso
Mais consequente que as duas anteriores, o debate levou ao palco o caso Ana Clara: Lula questionou Flávio sobre sua atuação na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, com um tiro de fuzil durante uma operação no Rio, em 2021. Flávio respondeu que o disparo ocorreu em uma troca de tiros.
É o ponto do debate com maior desdobramento fora dele. As agências de checagem confirmaram que Flávio integra a defesa do PM — e a versão que ele apresentou no palco é contestada pela própria Polícia Militar e pela perícia do caso. Não é um número a corrigir: é uma versão sobre um fato que um processo em curso vai julgar, e o debate a levou para milhões de espectadores.
Onde o debate parou no tempo
Boa parte dos dados apresentados pelos dois candidatos já havia sido objeto de verificação em ocasiões anteriores da campanha — pela Lupa, pelo Aos Fatos e pelo Fato ou Fake. Três afirmações de Lula sobre crescimento econômico e duas de Flávio sobre apostas online, por exemplo, já circulavam checadas há semanas ou meses. Um debate em que os mesmos números voltam, já verificados, diz menos sobre os candidatos do que sobre o eleitorado que eles presumem.
4 · Como o debate foi avaliado
As avaliações publicadas nas horas seguintes convergiram, com graus diferentes. A Folha publicou análise sob o título "Em debate mais civilizado do que o primeiro, Lula vence Flávio por pontos", e o cientista político Antonio Lavareda afirmou ao jornal que "Lula vence debate por margem clara, mas não esmagadora". A CNN registrou que a tônica foi de propostas com ataques, e que os dois dobraram a aposta no tema dos sigilos. A Globo, segundo a análise da Folha, baixou a temperatura do confronto com regras mais rígidas de movimentação.
É importante separar o que são análises de desempenho — produzidas por jornalistas e analistas, com critérios próprios e preferências conhecidas — do que são os fatos do programa. As avaliações citadas são opiniões identificadas, não resultados verificáveis, e não existe métrica que determine quem venceu um debate.
Um dado que ajuda a dimensionar o alcance: o programa foi transmitido pela TV Globo, GloboNews, g1 e Globoplay, com checagem em tempo real de quatro agências — a Lupa, em parceria com a Folha, o Fato ou Fake do Grupo Globo, o Aos Fatos e o UOL Confere. Essa cobertura paralela, feita durante a transmissão, é uma prática consolidada desde 2020 e mudou a forma como o eleitor acompanha debates: hoje, quem assiste tem como conferir em tempo real o que ouve.
5 · O que fica para domingo
O debate foi o último ato público da campanha, e ocorre a dois dias de uma votação decidida por margem estreita. As pesquisas divulgadas na semana mostram Flávio à frente em quatro de cinco levantamentos, com todos os resultados dentro da margem de erro — e uma tendência de aproximação nos institutos que fizeram mais de uma medição.
Resta uma pergunta interessante sobre o efeito do programa, e ela não tem resposta verificável. Uma parte do eleitorado assistiu ao debate com a checagem aberta no celular, conferindo as afirmações enquanto eram ditas. Outra parte vai receber os recortes pelas redes, e os recortes que mais circulam não são os blocos de propostas: são os "nove dedos" e o "miliciano". Um debate de três horas tende a sobreviver, na memória coletiva, por cinco segundos — e escolher quais é parte do que acontece agora, entre o palco e a urna.
Nota metodológica
Este texto se baseia no relato do debate publicado pelo g1, pela Agência Brasil, pelo UOL, por Veja, pela CNN Brasil e pela Folha de S.Paulo, entre 23 e 24 de outubro de 2026, e nas checagens em tempo real publicadas pela Agência Lupa (em parceria com a Folha), pelo Fato ou Fake do Grupo Globo, pelo Aos Fatos e pelo UOL Confere. Esta é uma peça de balanço geral: os resultados detalhados das verificações, item por item e por candidato, são objeto de material separado. As avaliações de desempenho estão atribuídas a seus autores e veículos e apresentadas como análises, não como apuração. Os dados das pesquisas estão referidos conforme divulgados no período, sem acesso aos relatórios completos.
Tuane Fernandes/NurPhoto/Getty Images
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