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Marechal: os 90 ônibus voltaram, mas a crise do transporte no DF continua aberta

Por Redação EG News • 30/10/2026 às 16h07 (Atualizado em 30/10/2026 às 16h17) • ⏱️ 9 min de leitura
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Depois de dois dias parados, os veículos retomaram a operação com um acordo financeiro; o GDF foi à Justiça, a CLDF deu 10 dias para a Semob explicar a concessionária e a dívida acumulada passa de R$ 1,4 bilhão.

Os 90 ônibus da Auto Viação Marechal recolhidos por decisão judicial voltaram a circular no Distrito Federal na tarde desta sexta-feira (30). Ficaram dois dias parados — desde a manhã de quarta-feira (28) — e o retorno só veio depois de um acordo financeiro entre a empresa e a Volvo Financial Services, credora dos veículos.

Mas o episódio não é o fim de uma crise isolada. Ele expõe a situação financeira da concessionária, a dívida bilionária do governo distrital com as empresas de ônibus e a discussão sobre intervenção na concessão — prevista em contrato e agora em análise na Câmara Legislativa.

1 · O que aconteceu, dia a dia

Data

O que ocorreu

28/10 (qua)

Oficiais de Justiça e a PMDF retêm 90 ônibus Volvo nas garagens da empresa; 70 deles ficam em Ceilândia. Cumprimento de decisão judicial expedida em Curitiba.

29/10 (qui)

Veículos seguem parados no segundo dia. Semob reforça a operação com 33 ônibus da frota reserva e aciona Piracicabana, Urbi e BsBus.

30/10 (sex)

PGDF pede na Justiça a suspensão da liminar. A Volvo aceita proposta de acordo da Marechal. Os 90 ônibus voltam a circular à tarde.

2 · Por que os ônibus foram recolhidos

A retenção partiu de uma decisão judicial expedida em Curitiba, acionada pela Volvo Financial Services — a divisão de serviços financeiros do fabricante. A empresa alegou inadimplência de contrato financeiro.

A Volvo afirmou, em nota, que houve "inúmeras tentativas de negociação ao longo dos últimos seis meses" antes de recorrer à Justiça.

O processo que motivou a medida corre sob sigilo — os próprios oficiais de Justiça informaram que não podiam detalhar o motivo da decisão, e a Marechal disse que não tinha detalhes sobre o teor.

3 · O que a Marechal diz

A empresa se manifestou três vezes, e a evolução das notas conta a história do episódio:

"Na manhã desta quarta-feira (28), 90 ônibus da Auto Viação Marechal deixaram de sair da garagem em cumprimento a uma determinação judicial. A empresa foi surpreendida pela medida, uma vez que mantém negociação em andamento com a Volvo para a solução das pendências entre as partes."

"A situação foi resolvida e os veículos retornam às ruas imediatamente."

"Com todos os ônibus em circulação, a Marechal retoma sua operação completa, e os passageiros voltam a contar com o atendimento regular em todas as linhas."

4 · Quem foi afetado

Os veículos recolhidos integram a Bacia 44, que atende Guará, Ceilândia, P Sul e Taguatinga. A frota total da empresa é de 530 coletivos — os 90 retidos equivalem a aproximadamente 17% da operação.

Durante os dois dias, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) determinou o uso dos veículos reserva da própria Marechal e mobilizou as empresas Piracicabana, Urbi e BsBus para reforçar o atendimento. Foram 33 ônibus da frota reserva colocados em circulação.

Parte dos veículos foi retida em garagem em Ceilândia, onde a reportagem da TV Globo registrou 70 dos 90 ônibus impedidos de sair. A PMDF acompanhou a operação para garantir a segurança.

Como alternativa no período, passageiros recorreram ao Metrô-DF, que atende Ceilândia e Taguatinga.

5 · A reação do governo e da fiscalização

Procuradoria-Geral do DF. Nesta sexta-feira, antes do acordo, a PGDF pediu a suspensão da liminar que retirou os ônibus de circulação, citando "possíveis entraves financeiros".

Câmara Legislativa. A comissão da CLDF presidida pelo deputado Max Maciel (PSOL) deu prazo de 10 dias úteis para a Semob prestar informações sobre três pontos: a situação financeira da concessionária, a renovação da frota e a possibilidade de intervenção na empresa.

Semob. A secretaria informou que acompanha a situação e orientou a Marechal a adotar providências para regularizar o serviço.

6 · A dívida do GDF: mais de R$ 1,4 bilhão

O episódio da Marechal não se explica apenas pela relação entre a empresa e a Volvo. Um relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal aponta que a Secretaria de Mobilidade acumulou dívida de mais de R$ 1,4 bilhão com fornecedores, "referente a fornecimento de bens e prestação de serviços".

Segundo apuração da TV Globo, o GDF deve às cinco empresas de ônibus repasses que deveriam ter sido feitos neste ano e em anos anteriores.

O governo distrital afirma que 85% da dívida foi regularizada. O presidente do Sindicato dos Rodoviários do DF sustenta que a falta de repasses foi o que levou à situação de inadimplência das empresas.

7 · O contrato prevê intervenção

A discussão que a CLDF abriu tem base contratual. O Contrato de Concessão nº 08/2013-ST/DF, que rege a operação da Bacia 4, prevê:

·         intervenção por decreto do governador, com prazo de 180 dias;

·         possibilidade de caducidade da concessão;

·         e previsão de intervenção por abandono de capacidade operacional.

A tarifa técnica da empresa está homologada em R$ 10,2589. O histórico de frota vencida da concessionária vem de longe: em 2023 eram 326 ônibus irregulares; em maio de 2026, 147.

Em julho, o TCDF proibiu a prorrogação do contrato. Em março, um incêndio na fábrica da Caio Induscar já havia comprometido a entrega de veículos novos ao sistema.

8 · O que ainda não está definido

Intervenção. Até o fechamento desta edição, não há decreto de intervenção. O que existe é o pedido da PGDF na Justiça e o prazo aberto pela CLDF para que a Semob explique a situação da concessionária.

A resposta da Semob à CLDF. O prazo é de 10 dias úteis, contados a partir do requerimento.

O teor do acordo com a Volvo. A empresa informou que os valores foram quitados, mas não foram divulgados o montante nem as condições do acordo.

O processo judicial. Como corre sob sigilo, não se conhece o conteúdo da decisão de Curitiba nem se ela foi definitivamente encerrada após o acordo.

9 · O que isso significa para quem usa ônibus no DF

A volta dos 90 veículos restabelece a operação completa da Marechal e encerra a fase mais visível da crise. Mas os dois fatores que produziram o episódio continuam no lugar: a inadimplência da concessionária com seus credores e os repasses atrasados do governo às empresas do sistema.

Enquanto isso, a decisão sobre intervir ou não na concessão está nas mãos do governo distrital — e depende, em parte, das informações que a Semob terá de prestar à Câmara Legislativa.

10 · Nota metodológica

As informações sobre o recolhimento, a devolução dos veículos e as notas da Auto Viação Marechal e da Volvo Financial Services foram apuradas em reportagens do g1, Metrópoles e Correio Braziliense, e se referem aos dias 28, 29 e 30 de outubro de 2026.

Os dados sobre a dívida da Secretaria de Mobilidade vêm de relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal divulgado em 29 de outubro, e a informação sobre a regularização de 85% é do governo distrital. O pedido da PGDF e o prazo dado pela CLDF à Semob constam de reportagens de 30 e 28 de outubro, respectivamente.

A previsão de intervenção e caducidade consta do Contrato de Concessão nº 08/2013-ST/DF. Esta matéria não afirma que a intervenção tenha sido decretada — afirma que ela é objeto de apuração e que está prevista em contrato.