Rádio EG News Terça, 27 de outubro de 2026 27/10/2026
EG News
Siga-nos
BRASIL POLITICO

Quatro aliados pediram que Flávio reconhecesse a derrota. Eles foram voto vencido.

Por Redação EG News • 26/10/2026 às 18h33 (Atualizado em 26/10/2026 às 18h41) • ⏱️ 10 min de leitura
WhatsApp
Tamanho:
Imagem da matéria

Na casa do Lago Sul, entre 21h08 e 22h40, a cúpula da campanha se dividiu sobre o pronunciamento · a ala que incluía Nikolas Ferreira prevaleceu · no dia seguinte, integrantes do grupo relatam mudança de rota, sem protocolo · 26 de outubro de 2026

1 · A reunião

O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral na noite de domingo (25), e Lula tornou-se matematicamente reeleito às 21h08. Na casa do Lago Sul, em Brasília, onde funcionava o quartel-general da campanha, Flávio Bolsonaro acompanhava a apuração com familiares, aliados e integrantes das bancadas do PL na Câmara e no Senado. O clima de confiança inicial mudou quando o presidente assumiu a dianteira, com cerca de 80% das urnas apuradas.

Diante dos números, o senador deixou a sala principal, onde um telão exibia a contagem, e se reuniu reservadamente com integrantes da cúpula da campanha. A discussão durou cerca de uma hora — entre 21h08 e 22h40 — e teve como objeto o teor do pronunciamento que ele faria em seguida.

2 · O quarteto que defendeu o reconhecimento

Quatro pessoas próximas recomendaram que Flávio reconhecesse o resultado do segundo turno e telefonasse para o presidente reeleito. A sugestão partiu de:

Nome

Função

Tarcísio de Freitas

governador de São Paulo (Republicanos)

Rogério Marinho

coordenador da campanha; senador (PL-RN)

Tereza Cristina

senadora (PP-MS); ex-ministra da Agricultura

Maria Claudia Bucchianeri

advogada; integrante da equipe jurídica da campanha

A posição do grupo não era de rendição: defendiam que o senador reconhecesse a vitória e mantivesse a possibilidade de recorrer à Justiça Eleitoral para questionar supostos abusos cometidos durante a campanha. Ou seja, reconhecer agora e contestar depois, sem transformar a contestação em recusa do resultado.

O argumento de cálculo era explícito. Uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral no TSE leva semanas ou meses até o julgamento, e no julgamento entram fatores que não são propriamente jurídicos — o desgaste político, a conjuntura do país, o tempo. O desfecho possível vai da multa à cassação de chapa. O modelo tinha precedente nomeado: Aécio Neves, em 2014, reconheceu e contestou, e a ação só foi a julgamento em 2017, três anos depois, quando Michel Temer já era presidente. Nas palavras de um dos participantes, Flávio "sairia grande do processo".

3 · A ala que venceu

Flávio deu preferência a outro grupo, descrito nas apurações como mais radical, que defendia contestar o resultado imediatamente e sustentar que a vitória de Lula não era legítima. Entre os integrantes dessa ala está o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O senador tomou a decisão final.

A orientação vencedora foi a linha mais dura, e apareceu no pronunciamento feito em seguida, em dois púlpitos improvisados:

É inexplicável ter acontecido o que aconteceu. Inclusive, nas palavras de algum ministro aí que a própria imprensa publicou, as eleições deveriam ter sido anuladas nas condições que as coisas aconteceram nesse momento. E o que eu tenho que falar aqui agora é que é impossível, é impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições.

O fundamento invocado foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de prorrogar o horário de votação — que a campanha de Flávio, segundo o próprio senador, havia pedido. O TSE desmentiu a acusação de que fiscais do PL teriam sido impedidos de acompanhar a totalização, afirmando que o local não é aberto à visitação e que os fiscais acompanharam o processo.

4 · No dia seguinte, a rota mudou — sem protocolo

Ao longo desta segunda-feira (26), integrantes da campanha e do grupo político de Flávio passaram a relatar uma mudança de estratégia. A contestação total da votação — a anulação da eleição — cedeu espaço ao foco em ações que alegam abuso de poder, entre elas a cassação da chapa adversária.

O quadro, com precisão:

●        na noite de domingo (25), Flávio declarou publicamente que não reconhecia o pleito e que sua equipe jurídica acionaria a Justiça para anular a eleição;

●        integrantes da campanha relatam, nesta segunda, que o esforço passou a se concentrar em ações por suposto abuso de poder e no pedido de cassação da chapa, em vez da anulação da votação inteira;

●        não há, até o fechamento desta reportagem, confirmação oficial de petição protocolada nesse sentido, nem documento assinado desistindo de um pedido formal.

Especialistas ouvidos pela imprensa jurídica tratam o pedido de anulação do segundo turno como juridicamente inviável. Isso ajuda a explicar por que a rota relatada migrou para as ações de impugnação e de abuso de poder, que têm fundamento e rito próprios.

Trata-se, portanto, de reposicionamento de rota relatado por fontes da campanha — não de uma desistência sacramentada. O discurso público de domingo e a estratégia descrita nesta segunda convivem, e nenhum dos dois foi formalmente substituído por um ato processual.

5 · O partido, em outra camada

No mesmo dia, o PL divulgou nota assinada por seu presidente, Valdemar Costa Neto, reconhecendo o resultado proclamado pelo TSE, com ressalva: os "questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático".

A nota não é endossada pelo candidato e não retira dele o respaldo para as ações. Interlocutores do presidente do partido afirmaram que ele não pretende aderir à iniciativa de contestar o resultado. É uma posição de duas camadas: o partido preserva a estrutura institucional, o candidato segue contestando no plano jurídico.

O movimento do partido se soma a outras manifestações do campo. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno reconheceram a vitória — o Republicanos, por meio de seu presidente Marcos Pereira, o União Brasil, de Antonio Rueda, e o MDB, que parabenizou o presidente reeleito e destacou o caráter democrático da votação. O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), eleito senador, também reconheceu a decisão dos eleitores. Dirigentes do Centrão atribuíram a derrota à "soberba" e à "arrogância" da campanha e sinalizaram reaproximação com o governo.

6 · O que observar

●        se a mudança de rota relatada pelas fontes da campanha se converte em peça protocolada, e em qual instância;

●        se o pedido de cassação da chapa anunciado no vídeo é efetivamente apresentado;

●        se o TSE chega a receber qualquer pedido de anulação da votação, ou se o anúncio de domingo fica sem consecução processual;

●        como o PL se posiciona caso a contestação avance sem respaldo formal da direção;

●        como evolui a disputa interna sobre a responsabilidade pela derrota em Minas Gerais, onde uma ala do partido responsabiliza Nikolas Ferreira.

7 · Nota metodológica

O relato sobre a reunião da noite da derrota — horários, participantes e posições — é atribuído a relatos feitos à CNN Brasil, na apuração do diretor de Jornalismo da emissora em Brasília, Daniel Rittner, e a reportagens do O Globo e da Jovem Pan. Os quatro participantes que defenderam o reconhecimento estão nomeados; a composição integral da ala que prevaleceu não foi detalhada nas fontes consultadas, e o único integrante identificado nela é o deputado Nikolas Ferreira.

A informação de que o senador foi aconselhado a reconhecer a derrota e ligar para o presidente reeleito é de fontes do entorno, não de confirmação pública dos envolvidos.

A mudança de estratégia relatada nesta segunda-feira é atribuída a integrantes da campanha e do grupo político, por meio de relatos veiculados na imprensa. Não houve, até o fechamento, confirmação oficial de petição protocolada desistindo do pedido de anulação, nem de sua apresentação em qualquer forma.

A declaração de Flávio reproduzida na seção 3 é a do pronunciamento da noite de 25 de outubro, registrada pela imprensa e pelo próprio senador. O resultado foi proclamado pelo TSE: Lula teve 51,79% dos votos válidos e foi reeleito; Flávio Bolsonaro teve 48,21%.

As afirmações de aliados e dirigentes partidários estão atribuídas a quem as fez quando constituem alegação, e não fato verificado.

Você Sabia?
Saiba mais →
Espaço Casa da Moldura