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O PL apagou a nota que não reconhecia a vitória de Lula

Por Redação EG News • 26/10/2026 às 17h53 (Atualizado em 26/10/2026 às 18h15) • ⏱️ 13 min de leitura
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A primeira versão dizia que o partido reconhecia "a dimensão do resultado" · horas depois, o texto foi apagado e substituído por outro, que reconhece o resultado proclamado pelo TSE · no mesmo dia, o candidato seguiu o caminho oposto · 26 de outubro de 2026

 

1 · O que o partido diz agora

No início da noite desta segunda-feira (26), o PL divulgou nota assinada por seu presidente nacional, Valdemar Costa Neto, reconhecendo o resultado da eleição presidencial que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva.

Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições.

O texto encerra afirmando que o partido continuará "firme, atuando com independência e responsabilidade na defesa da democracia, da liberdade e dos valores que representamos".

2 · O que o partido apagou

Essa não foi a primeira versão da nota. O PL havia publicado, mais cedo no mesmo dia, um texto que evitava reconhecer expressamente a vitória — e o apagou antes de divulgar a versão final.

Versão

Trecho sobre o resultado

Primeira nota

"Reconhecemos a dimensão do resultado presidencial..."

Nota final

"Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)..."

A troca é mais do que uma correção de redação, e a diferença está em duas palavras. Reconhecer "a dimensão" de um resultado é reconhecer o tamanho da derrota sem aceitar seu efeito — o resultado existe como fato, não como veredicto. Reconhecer "o resultado" é aceitar o veredicto. O partido passou de uma formulação que contornava a vitória para uma que a admite.

Segundo o registro jornalístico do episódio, a maior parte do texto foi mantida, e o trecho alterado foi exatamente o que tratava do resultado das urnas. A primeira versão circulou até cerca de 17h21; a versão final foi divulgada por volta das 19h51.

3 · A ordem dos fatos na mesma tarde

A cronologia importa, porque explica por que a nota mudou duas vezes. Entre a primeira publicação e a versão final, o candidato derrotado foi na direção oposta ao do partido.

●        cerca de 17h21 — o PL divulga a nota que reconhece apenas "a dimensão do resultado";

●        17h23 a 17h34 — Flávio Bolsonaro anuncia, em vídeo, que pedirá a cassação da chapa do presidente reeleito, e apresenta a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) por abuso de poder econômico;

●        fim da tarde — o mesmo vídeo em que o senador relata ter sido intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes;

●        19h51 — o PL apaga a primeira nota e publica a versão que reconhece o resultado proclamado pelo TSE.

O partido se corrigiu depois de o candidato ter ido na direção contrária. A nota final e o anúncio do candidato convivem no mesmo dia, apontando para lados diferentes.

4 · As ressalvas que o partido manteve

A nota final reconhece o resultado, mas não é uma rendição. Além da cobrança de esclarecimentos sobre "os questionamentos levantados", o partido registra uma crítica ao que chama de uso eleitoreiro da máquina pública.

A ampliação expressiva dos gastos públicos com benefícios sociais às vésperas da votação levanta questionamentos sobre os efeitos dessas medidas em um processo eleitoral justo, além de possíveis consequências econômicas para o país.

Entre as medidas citadas está o reajuste de 15% do Bolsa Família, anunciado na reta final da campanha. A nota não apresenta provas de irregularidade, e o partido também questiona a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que prorrogou o horário de votação.

A prorrogação, contudo, havia sido pedida pela própria campanha do PL — o que o senhor Flavio Bolsonaro reconheceu em seu pronunciamento de domingo. E o Tribunal Superior Eleitoral desmentiu a alegação de que fiscais do partido teriam sido impedidos de acompanhar a totalização, afirmando que o local não é aberto à visitação e que os fiscais acompanharam o processo.

5 · O candidato, no caminho oposto

Na noite de domingo (25), quando o resultado foi confirmado, Flávio Bolsonaro disse que era impossível reconhecer a derrota.

É inexplicável ter acontecido o que aconteceu. Inclusive, nas palavras de algum ministro aí que a própria imprensa publicou, as eleições deveriam ter sido anuladas nas condições que as coisas aconteceram nesse momento. E o que eu tenho que falar aqui agora é que é impossível, é impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições.

No dia seguinte, mudou o instrumento. Em vez da anulação da votação, anunciou que buscará a cassação da chapa eleita por meio de uma AIJE por abuso de poder político e econômico.

Então eu vou pedir sim a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu. A lei tem que valer para todo mundo.

A assessoria do senador confirmou que a ação questionará abusos na campanha adversária, e não o processo eleitoral. Segundo a imprensa jurídica e econômica, a equipe de Flávio já havia apresentado uma AIJE contra a chapa de Lula e Alckmin durante a própria campanha — o instrumento não é novo na mão deles.

A mudança de foco é atribuída, entre outros fatores, à baixa probabilidade de êxito de um pedido de anulação do segundo turno, apontada por especialistas.

6 · O racha interno que explica a nota dupla

Uma nota publicada, apagada e reescrita em duas horas e meia é o sintoma de uma divisão que já havia aparecido na noite da derrota. Entre 21h08 — quando o presidente reeleito se tornou matematicamente vitorioso — e 22h40, houve uma discussão de cerca de uma hora em uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde o candidato acompanhava a apuração.

Segundo relatos feitos à CNN Brasil, na apuração do diretor de Jornalismo da emissora em Brasília, Daniel Rittner, quatro pessoas recomendaram que ele reconhecesse a derrota e telefonasse para o presidente reeleito — sem abrir mão da contestação, mas registrando a vitória e mantendo a possibilidade de recorrer depois à Justiça Eleitoral:

●        Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo (Republicanos);

●        Rogério Marinho, coordenador da campanha e senador (PL-RN);

●        Tereza Cristina, senadora (PP-MS) e ex-ministra da Agricultura;

●        Maria Claudia Bucchianeri, advogada integrante da equipe jurídica da campanha.

Foram voto vencido. O candidato seguiu a orientação de um grupo descrito nas apurações como mais radical, que defendia contestar o resultado imediatamente. Entre os integrantes dessa ala está o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

O argumento do quarteto era de cálculo, e tinha precedente nomeado: uma AIJE leva semanas ou meses até o julgamento, e no julgamento entram fatores que não são propriamente jurídicos — desgaste político, conjuntura, tempo. O desfecho vai da multa à cassação de chapa. Em 2014, Aécio Neves reconheceu e contestou, e a ação só foi a julgamento em 2017, três anos depois, quando Michel Temer já era presidente. Nas palavras de um dos participantes, o senador "sairia grande do processo".

7 · O isolamento do partido

A nota da direção não é um movimento isolado: ela acompanha o reconhecimento que o campo aliado já havia feito. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno reconheceram a vitória, e a nota do PL se soma a esse movimento — enquanto a contestação segue por conta do candidato.

O presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, reconheceu a vitória e afirmou que a reeleição ocorreu democraticamente. O Republicanos, por meio de seu presidente Marcos Pereira, também reconheceu o resultado e defendeu o diálogo com o Congresso. O União Brasil, comandado por Antonio Rueda, divulgou nota afirmando que a soberania popular se manifestou livremente nas urnas. O MDB parabenizou o presidente reeleito e destacou o caráter democrático da votação. O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), eleito senador, reconheceu a decisão dos eleitores.

Dirigentes do Centrão atribuíram a derrota à "soberba" e à "arrogância" da campanha e sinalizaram reaproximação com o governo — o que deixou a contestação politicamente isolada.

8 · O que observar

●        se a AIJE anunciada pelo senador será efetivamente protocolada, e com qual pedido;

●        se o PL assume formalmente alguma peça da contestação, ou se mantém a distância da nota;

●        se chega a haver pedido de anulação da votação, ou se o anúncio de domingo fica sem consecução processual;

●        como o partido se posiciona caso a contestação avance sem respaldo da direção;

●        como evolui a disputa interna sobre a responsabilidade pela derrota em Minas Gerais, onde uma ala do partido responsabiliza Nikolas Ferreira;

●        se o senador sustenta o papel de líder da oposição que anunciou no mesmo dia.

9 · Nota metodológica

O fato central desta reportagem — a publicação de uma primeira nota, seu apagamento e a divulgação de uma segunda versão — foi registrado pela imprensa, com as duas redações do trecho sobre o resultado reproduzidas nos textos publicados. A primeira versão circulou até cerca de 17h21 e a versão final foi divulgada por volta das 19h51; a alteração do trecho é descrita como restrita a essa passagem, com a maior parte do texto mantida.

Não foi possível verificar, nesta apuração, por quanto tempo a primeira nota permaneceu no ar nem se há registro público de sua redação integral.

A nota final é assinada pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e sua transcrição é reproduzida por diversos veículos. A crítica fiscal e a menção ao reajuste de 15% do Bolsa Família constam do comunicado; o partido não apresentou provas de irregularidade.

A confirmação de que a ação questionará abusos de poder político e econômico na campanha adversária partiu da assessoria do senador. O anúncio da cassação é do próprio Flávio Bolsonaro, em vídeo divulgado nesta segunda-feira; até o fechamento desta reportagem não havia confirmação de petição protocolada.

O relato sobre a reunião da noite da derrota é atribuído a relatos feitos à CNN Brasil, na apuração de Daniel Rittner, e a reportagens de O Globo e da Jovem Pan. Os quatro participantes que defenderam o reconhecimento estão nomeados; da ala que prevaleceu, o único integrante identificado nas fontes consultadas é o deputado Nikolas Ferreira.

O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral: Lula teve 51,79% dos votos válidos e foi reeleito; Flávio Bolsonaro teve 48,21%. As afirmações de aliados e dirigentes partidários estão atribuídas a quem as fez quando constituem alegação, e não fato verificado.

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