Sangue na urina pode ser sinal de câncer renal, alertam especialistas
No Março Vermelho, mês de conscientização sobre o câncer renal, especialistas da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) orientam a população sobre quando buscar avaliação médica. Eles também explicam por que a doença muitas vezes é descoberta em exames feitos por outros motivos e reforçam que a prevenção envolve, principalmente, o controle de fatores de risco que podem ser evitados ou controlados.
Sinais de alerta são discretos
“O principal sinal que um paciente pode apresentar no câncer de rim é o sangramento na urina (hematúria)”, afirma o urologista André Brasileiro, do Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC-UFCG). Para ele, mesmo quando não há dor, a alteração precisa ser investigada: “qualquer presença de sangue na urina, quer seja visível a olho nu ou mesmo apenas no sumário de urina, requer uma consulta com um urologista para esclarecimento da causa”.
Em parte dos atendimentos, o alerta chega sem sintomas anteriores, a partir de achados em exames de imagem. André relata que “tem sido muito comum recebermos pacientes sem qualquer queixa, mas que fizeram uma ultrassonografia abdominal por outro motivo e encontraram um nódulo renal”. Segundo o urologista, “essas situações estão cada vez mais corriqueiras”.
Casos tendem a crescer no país e prevenção foca em fatores de risco
No Brasil, o câncer renal tem incidência relativamente baixa quando comparado a outros tipos, mas com tendência de crescimento. A oncologista Fernanda Chitolina, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-CH-UFRJ), destaca que “segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026–2028, estima-se um aumento de aproximadamente 10% em relação ao período anterior”. Ela relaciona esse cenário a fatores como envelhecimento populacional, obesidade e sedentarismo, hipertensão arterial, tabagismo e maior acesso a exames de imagem, o que também amplia os diagnósticos.
Do ponto de vista da saúde pública, a prevenção tem papel central, especialmente por não haver recomendação de exames de rotina para toda a população. “Não há indicação de exames populacionais de rotina, pois não existe evidência científica de benefício para pessoas sem sintomas ou fatores de risco”, afirma Fernanda. Ela acrescenta que indivíduos de alto risco, como pessoas com síndromes hereditárias ou com histórico familiar, podem se beneficiar de vigilância específica.
Tratamentos priorizam preservação da função renal
Nesse contexto, o avanço dos exames fez crescer a identificação de tumores menores, o que influencia diretamente a escolha do tratamento. O urologista Humberto Lopes, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF) e professor da Faculdade de Medicina/UFJF, explica que, seguindo diretrizes nacionais e internacionais, a prática tem privilegiado a preservação de função renal quando possível. “Nos últimos 15, 20 anos, cada vez mais o urologista tem optado por realizar a cirurgia preservadora de néfrons. Isso quer dizer: tentar não retirar todo o rim do paciente e realizar uma nefrectomia parcial”, afirma.
Sobre os atendimentos, Humberto observa que, “em casos selecionados, cerca de 40% a 50% dos tumores renais são diagnosticados de maneira incidental”. Ele acrescenta que “é muito comum hoje fazer diagnóstico de lesões sólidas no rim de um centímetro, dois centímetros” e que, em situações específicas, sobretudo em pessoas muito idosas ou com outras doenças, pode ser indicada uma estratégia de acompanhamento. “Em muitos desses casos, em pacientes idosos, pode ser uma conduta mais conservadora, que se chama vigilância ativa”, relata.
Além do acompanhamento regular do tumor, existem opções minimamente invasivas em situações específicas. Humberto cita a crioablação (destruição por congelamento do tecido anormal) e a radiofrequência como alternativas para casos em que a decisão é tomada em conjunto e depende de critérios clínicos, longevidade e tecnologia disponível no serviço. Ele lembra ainda que, quando há dúvida na identificação de massas renais pequenas, exames complementares podem apoiar a tomada de decisão, como a ressonância magnética, além do acompanhamento do crescimento em exames periódicos.
Quando a indicação é cirúrgica, a escolha da técnica costuma considerar tamanho da lesão, função renal e condições clínicas. Humberto explica que “quando a lesão tem até quatro centímetros, e o paciente possui função renal normal, com outro rim normal, a nefrectomia é quase sempre indicada parcial”. O objetivo é “realizar a retirada da lesão com uma margem, sem deixar tumor residual e preservando o rim do paciente”, afirma. Ele lembra que essa abordagem pode ser realizada por via aberta, por laparoscopia ou, ainda, assistida por robô, “uma ferramenta importante” nos procedimentos minimamente invasivos, porque permite melhor identificação das margens do tumor, maior controle do sangramento e facilita a reconstrução do tecido do rim, com sutura após a retirada da lesão.
Em tumores grandes e complexos, com comprometimento de estruturas importantes, o tratamento pode exigir retirada completa do rim. “Paciente com grandes massas renais, lesões complexas, que crescem muito dentro do rim, que invadem estruturas nobres, vasos nobres… aí que se faz a nefrectomia radical”, diz Humberto.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Felipe Monteiro, com revisão de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh