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A crise que já chegou e atinge primeiro quem sempre foi deixado por último Saúde, mulheres negras e clima

Por Redação EG News • 03/10/2026 às 07h54 (Atualizado em 03/10/2026 às 12h00) • ⏱️ 7 min de leitura
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A crise que já chegou e atinge primeiro quem sempre foi deixado por último

Por Walter Pinaya

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Em 2026, as mudanças climáticas estão reescrevendo o mapa das doenças no Brasil. Quando o calor extremo faz Paraisópolis, em São Paulo, ficar 15°C mais quente que o bairro rico ao lado, quando a seca na Amazônia isola comunidades inteiras do sistema de saúde, quem paga a conta mais pesada são as mulheres negras, as mulheres indígenas e todos os povos que carregam séculos de racismo e desigualdade nas costas.

Em setembro de 2026, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse em público uma frase que foi repetida muitas vezes “as mudanças climáticas, já constituem uma crise de saúde pública no Brasil e no mundo". Não é força de expressão. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada quatro mortes no mundo tem alguma relação com as mudanças climáticas. No Brasil, isso aparece de forma concreta: a dengue está descendo para o Sul, com casos autóctones aparecendo no Rio Grande do Sul, onde antes praticamente não existiam; a febre do Oropouche saiu da Amazônia e chegou ao Espírito Santo, ao Rio de Janeiro e a Minas Gerais, com quase 12 mil casos registrados em 2025, contra apenas 834 dois anos antes.

Mas a crise climática nunca cai igualmente sobre todo mundo. Um estudo da UFABC publicado em 2025 mostrou que a temperatura da superfície em Paraisópolis, na capital paulista, chegou a 45°C, enquanto no Morumbi, bairro rico a poucos metros de distância, ficou em 30°C, uma diferença de 15°C. Os pesquisadores chamam esse tipo de morte por calor de 21 vezes maior que o de mortes por deslizamentos e outras catástrofes. E segundo dados do IBGE de 2024, 72,9% dos moradores de favelas no Brasil são pretos e pardos. Ou seja: a desigualdade racial está escrita na temperatura da cidade.

Na Amazônia, a crise climática corta a vida por outro caminho. Uma pesquisa financiada pela FAPESP e publicada no British Medical Journal criou o conceito de "territórios fluidos", na Amazônia, os rios são a única estrada para chegar ao sistema de saúde. Quando a seca faz o rio secar, comunidades inteiras ficam fisicamente isoladas do atendimento médico. O autor do estudo, o professor Leandro Giatti, da USP, descreve "Nas secas recentes, comunidades inteiras ficaram isoladas, sem acesso a serviços de saúde, agravando doenças infecciosas, contaminação e fome". Em lugares que já eram difíceis de alcançar, a crise climática transformou o próprio ato de chegar em luxo.

Para as mulheres negras e indígenas, a crise climática carrega um peso extra que quase nunca aparece nas manchetes. No mundo, 158 milhões de mulheres podem cair na pobreza por causa das mudanças climáticas com 16 milhões a mais que os homens. No Brasil, as mulheres dedicam 10 horas semanais a mais que os homens ao trabalho doméstico não remunerado; em famílias de baixa renda, essa diferença chega a 26 horas. Quando a seca chega, a distância para buscar água aumenta. Quando a enchente passa, a limpeza e o cuidado sobram para elas. Quando falta comida, são elas que comem menos para os filhos comerem. Um estudo da Escola de Enfermagem da USP publicado em 2026 registrou como as mulheres da ocupação Lélia Gonzalez, do MTST, enfrentam ao mesmo tempo calor extremo, enchentes, doenças, insegurança alimentar e moradia precária com todas as pressões empilhadas sobre o mesmo corpo.

Entre as favelas urbanas e as terras indígenas, entre as margens de um rio contaminado e o mesmo pedaço de chão castigado pelo sol, a crise climática mostra faces diferentes. Para as mulheres negras das periferias, é um risco 50% maior de insolação e doenças cardiovasculares. Para as comunidades indígenas da Amazônia, é o rio que seca e leva embora o caminho até o posto de saúde. Para os quilombolas e povos de matriz africana, é a terra dos ancestrais sendo corroída por enchentes e secas que se repetem cada vez mais rápido. Um documento interministerial do governo brasileiro publicado em 2026 afirma com todas as letras que o risco climático está agravando desigualdades de gênero que já existem na sociedade brasileira. Não é um aviso sobre o futuro. É um registro do presente.

A mudança do clima não é uma chuva justa. Ela molha todo mundo, mas tem gente sem guarda-chuva, gente morando em casa que infiltra, gente que nem casa tem. Em Paraisópolis, os 45°C na superfície não são "calor". São o resultado de décadas de segregação racial e políticas habitacionais que falharam. Na Amazônia, um rio que seca não é "seca". É o capítulo mais recente de povos indígenas sendo expulsos de suas terras e excluídos das decisões. Quando a gente diz que "a crise climática afeta a saúde", precisamos ser mais específicos: ela afeta a saúde de quem já foi ignorado por tempo demais, de quem foi empurrado pela história para os lugares mais perigosos e menos protegidos. Não é a natureza punindo a humanidade. É a desigualdade encontrando uma nova saída. E ainda dá para mudar a direção dessa saída começando por colocar as pessoas mais vulneráveis na primeira linha das políticas climáticas, e por acreditar que elas próprias são parte da solução. Saúde plena para todas e todos não é um privilégio de quem tem ar-condicionado. É um direito de quem respira o mesmo ar do planeta. E enquanto houver uma mulher negra ou indígena carregando o peso do clima nas costas, a conta da humanidade ainda não fechou. Que a gente saiba somar antes que seja tarde. A sobrevivência do planeta Terra e da humanidade dependa da ação de cada um de nós. Pense nisso!