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Meu Encontro com Seu Zé – Uma Crônica Narrativa Autobiográfico

Por Redação EG News • 02/10/2026 às 19h12 (Atualizado em 02/10/2026 às 19h13) • ⏱️ 5 min de leitura
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Era um sábado de outubro de 2025, um daqueles dias em que a primavera paulista ensaiava seu calor. Meio-dia em Santo André, e eu, Walter, aguardava o ônibus para visitar uma amiga, na Zona Sul de São Paulo. O sol insistente justificava meu uniforme de fim de semana: shorts, chinelo de dedo, a camiseta preta estampada leve e de tecido respirável, e o chapéu de balde azul claro, para me proteger do sol. Na mochila verde, o essencial para eu passar o fim de semana no apartamento de minha amiga e, escondido no fundo, o peso do mundo. Distraído com as mensagens do celular, não vi o exato momento de sua chegada. Ele simplesmente materializou-se diante de mim. Um senhor com o ar de quem já viu tudo, mas não perdeu a curiosidade. Sua primeira palavra foi uma saudação que ecoou além do ponto de ônibus: “Salve suas forças”.

Ergui os olhos. Seu olhar não parecia me ver, mas sim me *ler*. “Sabe quem eu sou, né?”, perguntou, com uma convicção que vinha de outra esfera. Algo no meu sangue, na minha raiz, reconheceu aquela energia antes mesmo que minha mente pudesse nomeá-la. “Sei”, afirmei, com uma tranquilidade que me surpreendeu. E ele, com um sorriso que era ao mesmo tempo convite e confidência, completou: “Sou o Seu Zé”. Zé Pelintra. O malandro do astral, o santo do povo, a entidade que dança na corda bamba entre dois mundos. E foi isso que ele me explicou, como se respondesse a um questionamento silencioso. Disse ser uma alma livre, e que por isso navegava entre o espiritual e o terreno. Então, mirando diretamente a ferida que eu tentava disfarçar, acrescentou: “A sua também é assim”.

Antes que eu pudesse processar, ele tocou no cerne da questão. “Sua alma está triste”, declarou, e seus olhos brilhavam com um conhecimento ancestral. “E era para eu olhar o vidro do ponto de ônibus que eu perceberia isso.” Segui a instrução. Olhei para o reflexo embaçado e rachado no vidro. E lá estava eu: o Walter de sempre, mas com os ombros carregando um fardo invisível. A tristeza não era apenas um sentimento; era uma paisagem interna, o luto recente pela minha mãe, que partira havia poucos dias. Ele não adivinhou. Ele *viu*.

Num desabafo surpreendentemente humano, reclamou: não gostava que o pessoal vivesse ascendendo velas para ele. Um comentário tão terreno que, por um instante, esqueci a natureza daquele encontro. E então, como chegou, se foi dissolvendo-se no vai e vem da rua.

Pensei que era o fim. Mas o extraordinário reservava um epílogo. Ele retornou, minutos depois, como quem se lembra do recado mais importante. “Você é do candomblé”, disse, não como pergunta, mas como constatação. “Eu sou de todas as bandas”, disse ele “Sim”, confirmei. E então ele me ofereceu a tábua de salvação que minha alma precisava: “Isso vai passar”.

Quatro palavras. Uma promessa de um mensageiro.

A realidade interveio com o ronco do ônibus chegando. “Meu ônibus chegou”, anunciei. Ele, com a fineza de um diplomata cósmico, respondeu: “Foi um prazer lhe ter encontrado”.

Subi o primeiro degrau, as portas se fecharam. E num ato reflexo, olhei para trás, para o ponto de ônibus. Vazio. Ele não estava mais lá. Não havia ido embora; havia *desaparecido*. Como um suspiro do mundo invisível, uma aparição que cumpriu seu dever. Naquele sábado de outubro de 2025, em um ponto de ônibus qualquer, Zé Pelintra não quis sua vela. Ofereceu seu olhar e a certeza de que a dor, por mais profunda que seja, é uma visitante, nunca dona do lugar.

Salve Seu Zé! Salve sua banda