Ancestralidade, Tradição e os Desafios Contemporâneos das Religiosidades de Matriz Africana
Por: Redação]
Com informações da TV EG News / Programa Sobre o Mesmo Céu
Em um diálogo enriquecedor focado no fortalecimento das religiões de matriz africana, o apresentador Walter Pinaia recebeu na TV EG News o Babalorixá Alex de Oxum Ofeondiá, líder espiritual do tradicional terreiro Ilé Axé Fauminobá Danc Maleudô, fundado há mais de quatro décadas em Salvador (BA). A entrevista abordou temas essenciais para a preservação das tradições, o papel dos adeptos na esfera pública e os impactos das tecnologias e da modernidade no Candomblé.
Direito Espiritual vs. Direito de Sangue: O Legado de Mãe Estela de Oxóssi
Um dos pontos centrais da conversa referiu-se ao debate jurídico e institucional desencadeado após o falecimento de Mãe Estela de Oxóssi, uma das maiores lideranças religiosas do Brasil. Baba Alex analisou a decisão judicial que garantiu à família espiritual e ao Ilé Axé Opô Afonjá o direito de realizar os rituais sagrados de passagem (Axexê) da ialorixá, em detrimento do isolamento imposto na época por familiares de sangue.
"Quando ingressamos no Candomblé, renunciamos a muitas coisas pelo Orixá e abraçamos uma família espiritual. Na nossa religião, festejamos a vida e a morte. Privar o povo de axé de realizar os ritos sagrados para sua liderança é romper com o ciclo sagrado e colocar em risco a continuidade do próprio axé", pontuou Babá Alex.
O babalorixá ressaltou a importância dessa jurisprudência para proteger os terreiros e assegurar a sucessão religiosa legítima, como ocorreu com a posse da atual líder do Opô Afonjá, Ialorixá Ana de Xangô.
Diversidade de Nações e a Luta Contra a Intolerância
Ao abordar as diferentes tradições — como Ketu, Jeje, Angola, Tambor de Mina, Batuque e Umbanda —, Baba Alex destacou que não existe nação ou regionalidade superior. Para o sacerdote, todas as correntes buscam o mesmo propósito: o reencontro com a ancestralidade e o sagrado.
O líder religioso fez um apelo pela união entre os terreiros como ferramenta fundamental no combate ao preconceito e à intolerância religiosa.
Cidadania, Política e Visibilidade do Povo de Terreiro
Outro ponto enfatizado foi a urgência de o povo de terreiro ocupar espaços na política institucional e defender seus direitos garantidos por lei. Baba Alex destacou que a formação e a informação sobre direitos civis devem caminhar lado a lado com os ensinamentos sagrados dentro das casas de Candomblé.
Ele também reforçou o direito de professar a fé ostensivamente no dia a dia:
"Da mesma forma que o evangélico tem o direito de andar com sua Bíblia, o praticante do Candomblé tem o direito de usar seus fios de conta (guias), vestir suas roupas brancas na sexta-feira e caminhar com orgulho e cabeça erguida pela rua", afirmou.
Tradição Oral vs. "Pai Google": A Preservação da Essência
Ao discutir o impacto da tecnologia e da internet nas religiões tradicionais, Babá Alex fez um alerta severo contra o uso irresponsável do "Pai Google" e de manuais virtuais por pessoas sem iniciação e vivência de chão de terreiro.
Segundo o babalorixá, a espiritualidade e o jogo de búzios não se aprendem em livros ou telas, pois dependem de dom, axé e transmissão oral dos mais velhos.
"Candomblé é essência, é pé no chão, é ancestralidade no sangue. O que está no livro é receita teórica; a prática do axé é viva e cada ser humano exige um caminho único guiado pelos Orixás", explicou.
O sacerdote também criticou a busca desenfreada por "herança ou acúmulo de anos de santo" e a banalização dos cargos de chefia, ressaltando que o tempo de feitura por si só não substitui a sabedoria, a humildade e a capacidade real de transformar e equilibrar a vida de quem busca apoio no terreiro.
Um Apelo pela Humildade e Respeito aos Mais Velhos
Em sua mensagem final, Babá Alex de Oxum reforçou a importância do respeito mútuo, da união entre os praticantes e da preservação dos fundamentos para que as próximas gerações recebam uma religião forte e autêntica.
"Precisamos de mais humildade para buscar o conhecimento correto, nos abraçar e nos respeitar como irmãos de fé, garantindo que o axé permaneça vivo e respeitado", concluiu o babalorixá.
Para assistir à entrevista completa, acesse o canal da TV EG News no YouTube: 🔥 É HOJE, ÀS 18H! UM ENCONTRO DE AXÉ, ANCESTRALIDADE E CULTURA AFRICANA.
Fonte: EG NEWS

