O real interesse de Michelle por trás da “trégua” com Flávio Bolsonaro
No vídeo de quase três minutos enviado à convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro (PL) cita apenas uma vez o nome do enteado, com quem decretou uma trégua na guerra instalada no núcleo central do clã desde dezembro, que Jair Bolsonaro (PL) alçou o filho “01” à Presidência por uma carta suspeita escrita dentro da cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
Após ver a madrasta quase implodir sua candidatura com um vídeo-bomba em que expõe seu caráter misógino e autoritário, Flávio Bolsonaro aceitou a humilhação imposta e pediu desculpas públicas a Michelle.
A trégua foi negociada e escrita de um lado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, e, por outro, pela governadora Celina Leão (PP-DF), que é próxima e depende de Michelle para tentar se reeleger ao cargo herdado após a saída de Ibaneis Rocha (MDB).
No tratado, Michelle aceitou ficar de fora das decisões da campanha de Flávio Bolsonaro, especialmente no Ceará, estopim da guerra com o apoio do enteado à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado.
Michelle também teria sinalizado que não pretende se expor publicamente ao lado do enteado, como fez na convenção do PL no último sábado (25). Na ocasião, deu como justificativa da ausência os cuidados com o marido, que não a impedem de participar de outros atos de campanha pelo país.
“O meu galego não pode estar com vocês. Eu também não posso, porque estou em casa cuidando dele, mas os nossos corações estão aí, sentindo a mesma energia que nós dois tantas vezes encontramos nos eventos do PL Mulher por todo o Brasil”, afirmou, citando o movimento capitaneado por ela e implodido por Flávio Bolsonaro após conseguir demovê-la da Presidência da ala feminina da sigla.
Em seguida, Michelle focou seu discurso nas mulheres, principal entrave do enteado, que está quase 20 pontos atrás de Lula no eleitorado feminino, segundo pesquisa BTG Nexus divulgada nesta segunda-feira (27).
No entanto, diferentemente do desejado pelo enteado, Michelle não pediu votos para ele. Ela focou seu discurso em um projeto próprio, se colocando junto às mulheres que estão “preparadas e dispostas a ocupar cada vez mais espaços de decisão, liderança e poder”.
“Chegou a hora de vocês ocuparem os lugares em todos os espaços onde o futuro do Brasil é decidido, fazermos nossa voz ser ouvida e transformarmos essa força em ação. Foi por isso que lutei e é por isso que luto e é por isso que nós continuaremos lutando”, segue Michelle.
Ao final, antes de citar Flávio, a ex-primeira-dama faz referência ao próprio projeto político, transcrito no livro “Edificando a Nação”, uma espécie de conclamação para uma autocracia religiosa no país.
“São vocês que podem conquistar cada voto, recuperar cada esperança e trazer mais brasileiros para esse projeto de edificação da nossa nação”, afirmou.
https://x.com/sbtnews/status/2081052593904615712
A imagem da ex-primeira-dama de papelão enviada à convenção do PL é idêntica a que os ex-funcionários do PL Mulher homenagearam Michelle.
Após ela deixar a presidência, os ex-funcionários lançaram o “imparáveis”, um movimento político próprio em torno da ex-primeira-dama, numa espécie de fundação do Michellismo.
Desconfiança e vácuo político
Entre aliados, a trégua concedida pela ex-primeira-dama ao enteado é vista com desconfiança, já que como o próprio Bolsonaro definiu, Michelle seria “incontrolável”.
O acordo é visto como uma forma da madrasta acenar a uma parcela do bolsonarismo que teria ficado ao lado do enteado em meio à guerra.
Michelle teria aceitado a trégua para manter-se em meio ao eleitorado mais radical do clã ao mesmo tempo em que segue no comando, de maneira informal, do movimento que construiu junto às mulheres.
O objetivo da ex-primeira-dama seria se colocar como uma alternativa diante de um potencial naufrágio da candidatura do enteado em meio à campanha eleitoral.
Estacionado nas pesquisas, após derreter a partir da revelação do elo com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tem enfrentado crises sequenciais que dificultaram, inclusive, a formação de alianças com siglas do Centrão, essenciais para o tempo de TV.
Além da possibilidade de busca e apreensão durante a campanha, que se tornou ainda mais real após André Mendonça autorizar a investigação sobre o financiamento de Dark Horse por Vorcaro, Flávio Bolsonaro ainda terá à frente os debates presidenciais.
Mesmo sob pesado media training, o senador ainda carrega o trauma das eleições municipais de 2016, quando precisou ser amparado pela então adversária na disputa à prefeitura carioca, Jandira Feghali (PCdoB), ao passar mal em um debate na Band.
Um desempenho pífio, ainda mais diante de um Ronaldo Caiado (PSD) cada dia mais sedentos pelo eleitorado em disputa com o clã Bolsonaro, pode levar a candidatura de Flávio à bancarrota.
É ai que entraria Michelle. A ex-primeira-dama acredita que pode surgir como a salvação do clã Bolsonaro para manter um patamar de votos para eleição de uma bancada considerável no Congresso Nacional – atualmente, a sigla tem o maior número de parlamentares, com 97 deputados federais e 15 senadores.
Em seus cálculos, com o enteado cambaleante, Michelle poderia assumir o comando do bolsonarismo ao se eleger senadora pelo DF. Com isso, teria voz e espaço para consolidar o próprio movimento político, que visa uma parceria com Tarcísio Gomes de Freitas em 2030.
A trégua, assim como o vídeo de Bolsonaro na convenção, é fake, uma criação que leva a disputa no núcleo do clã para dentro da campanha de Flávio Bolsonaro, que agora corre o risco de perder a eleição para Lula e o comando do bolsonarismo para a madrasta Michelle.
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