Educação midiática avançou em 2025, mas famílias ainda enfrentam desafios na proteção online
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Enquanto o país aprova leis e currículo obrigatório, 60% dos pais dizem ter dificuldade para acompanhar a vida digital dos filhos
O ano de 2025 entrou para a história com avanços na proteção digital de crianças e adolescentes no Brasil. Em um cenário de uso cada vez mais precoce e intenso da internet, o país criou legislação, políticas educacionais, mobilização social e produção de dados inéditos, consolidando uma agenda que reconhece o ambiente digital como parte indissociável da infância e, portanto, como território que exige direitos, cuidado e responsabilidade coletiva.
Da restrição do uso de celulares nas escolas à aprovação do chamado “ECA Digital”, passando por diretrizes curriculares obrigatórias e pela pressão da sociedade civil, 2025 foi o ano em que o debate deixou de ser periférico para ocupar o centro das decisões públicas.
O Redes Cordiais, organização que trabalha com educação midiática, relembra os principais acontecimentos do ano e o avanço da proteção de dados para crianças e adolescentes no ambiente digital no Brasil:
Celulares fora da sala de aula e educação digital no currículo
Logo na primeira quinzena do ano, a sanção da Lei nº 15.100/2025 restringiu o uso de celulares em todas as escolas do país. A medida, amplamente debatida, foi celebrada como um avanço para a concentração, a convivência escolar e a saúde mental de crianças e adolescentes. Mais do que uma proibição, no entanto, o movimento abriu espaço para uma discussão mais ampla: como preparar estudantes para o uso consciente, crítico e responsável da tecnologia.
A resposta veio poucos meses depois. Em março, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou as Diretrizes Operacionais Nacionais para a integração da educação digital e midiática aos currículos escolares. Com aval do Ministério da Educação, o tema passa a ser obrigatório em toda a educação básica a partir de 2026, reconhecendo a educação midiática como ferramenta essencial de proteção, autonomia e cidadania no mundo conectado.
O “efeito Felca” e a aceleração da política pública
Em agosto, o debate ganhou um novo catalisador. Um vídeo do influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, viralizou ao denunciar a adultização e a sexualização de crianças e adolescentes nas redes sociais. O conteúdo repercutiu nas redes, na imprensa e chegou às manchetes políticas e policiais, impulsionando audiências públicas e debates no Congresso Nacional.
O episódio evidenciou que a cultura digital, embora traga riscos, também pode ser uma poderosa ferramenta de conscientização e mobilização social quando usada com responsabilidade. Para Clara Becker, diretora executiva do Redes Cordiais, o caso reforça a importância de envolver criadores de conteúdo na promoção de um ambiente digital mais seguro. “Influenciadores têm um papel central na formação de valores e comportamentos, especialmente entre crianças e adolescentes. Quando se engajam de forma responsável, eles ajudam a transformar o debate público e a pressionar por mudanças concretas”, afirma.
Há sete anos, o Redes Cordiais atua justamente nessa frente, engajando mais de 300 influenciadores, que somam cerca de 140 milhões de seguidores, em campanhas de conscientização, formações e treinamentos sobre educação midiática, segurança digital, desinformação e saúde mental, fortalecendo o diálogo democrático e o uso ético das plataformas. A repercussão do vídeo acelerou, assim, a tramitação de propostas no Congresso Nacional e deu novo fôlego à discussão sobre a atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital.
ECA Digital: um novo marco legal
O resultado foi a aprovação da Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital. A norma amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online ao prever, entre outros pontos, a supervisão familiar, a criação de uma autoridade nacional de fiscalização, regras específicas para jogos eletrônicos e o reconhecimento formal da educação midiática como instrumento de proteção e autonomia.
Ao incorporar o mundo digital ao arcabouço de direitos da infância, o Brasil dá um passo relevante ao reconhecer que os riscos online não são dissociados da vida social, escolar e emocional de crianças e adolescentes.
Famílias no centro do desafio: o que mostram os dados
Se o avanço legal foi significativo, os dados mostram que o desafio cotidiano ainda recai fortemente sobre as famílias. É o que revela o relatório “Redes de Proteção: Desafios e práticas na mediação digital de crianças e adolescentes”, lançado em outubro de 2025 pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS- Rio) e pelo Redes Cordiais.
Realizada com 327 responsáveis e três grupos focais em diferentes contextos urbanos, a pesquisa traça um retrato inédito da mediação parental no Brasil. O dado mais expressivo é claro: 60% dos pais e responsáveis consideram “difícil” ou “muito difícil” acompanhar a vida digital dos filhos, evidenciando um abismo entre a complexidade do ambiente online e a capacidade de supervisão familiar.
A dificuldade é atravessada por desigualdades sociais. Entre os responsáveis com renda de até um salário mínimo, mais da metade nunca utilizou aplicativos de controle parental, e apenas 7,7% o fazem regularmente. Já famílias com maior escolaridade e filhos em escolas privadas tendem a conhecer e usar mais recursos tecnológicos de mediação. Apesar da ampla oferta de ferramentas de monitoramento nas próprias plataformas, 43% dos pais nunca recorreram a nenhum recurso digital de controle. A maioria aposta em estratégias tradicionais: 71% limitam o tempo de uso, 70% incentivam atividades offline e 64% priorizam o diálogo sobre segurança e comportamento online.
Jogos, redes e riscos invisíveis
O relatório também aponta um baixo nível de conhecimento sobre o caráter social de jogos e plataformas digitais. Muitos responsáveis desconhecem que ambientes como Roblox, Free Fire e Discord funcionam como redes sociais, com chats e interações constantes entre usuários, o que amplia riscos como o cyberbullying e o contato com desconhecidos.
Não por acaso, 86% dos pais apontam a exposição a conteúdos inadequados como sua maior preocupação, seguida por saúde mental (82%), uso excessivo de telas (66%) e cyberbullying (41%).
Em famílias com guarda compartilhada, o desafio se intensifica: regras diferentes entre lares fragilizam a consistência da mediação digital. Além disso, 60% dos responsáveis relatam que os filhos já tentaram ou conseguiram burlar controles e senhas, reforçando que soluções exclusivamente técnicas são insuficientes sem diálogo e confiança.
Para Clara Becker, o desafio não está em proibir, mas em construir relações de confiança. “O desafio é criar um espaço de diálogo para um uso equilibrado, em que crianças e adolescentes não estejam em risco. Os adultos precisam estar preparados para criar esse ambiente saudável”, afirma.
Já Celina Bottino, diretora do ITS Rio, destaca que o projeto nasceu como ponte entre pesquisa e ação. “Não basta falar sobre segurança online. É preciso entender as desigualdades que atravessam o acesso à informação e oferecer soluções viáveis, especialmente para famílias em situação de vulnerabilidade. Proteger crianças e adolescentes na internet é uma tarefa coletiva”, ressalta.
O relatório mostra que 59% dos responsáveis gostariam de ter acesso a tutoriais e orientações práticas sobre ferramentas de controle parental, indicando uma demanda clara por capacitação e políticas públicas integradas.
Um novo ponto de partida
Ao combinar avanços legais, políticas educacionais, mobilização cultural e dados concretos sobre a realidade das famílias, 2025 se consolida como o ano em que o Brasil assumiu a proteção digital da infância como prioridade pública. O desafio agora é transformar leis e diagnósticos em práticas contínuas, garantindo que a internet seja, de fato, um espaço de desenvolvimento saudável, seguro e inclusivo para crianças e adolescentes.
Sobre o Redes Cordiais – Criado em 2018, o Redes Cordiais tem a missão de construir um ambiente digital mais saudável e confiável, estimulando comunidades comprometidas com diálogos democráticos em uma internet livre. A iniciativa aposta na educação midiática e nas habilidades necessárias para lidar de forma crítica e responsável com diferentes mídias, do jornal impresso aos aplicativos digitais, sempre valorizando o jornalismo de qualidade, o diálogo e a tolerância. Em sete anos de atuação, o projeto já engajou mais de 300 influenciadores, que somam 140 milhões de seguidores, publicou guias e e-books sobre desinformação e segurança digital e treinou milhares de jornalistas em temas como IA e saúde mental. O reconhecimento internacional veio com a citação no mapa da Unesco sobre educação midiática, que destacou o Redes Cordiais como uma das principais iniciativas brasileiras na área. Saiba mais em: www.redescordiais.org.br