Nossa criança interna precisa de cuidado!
Por Walter Pinaya
No dia 27 de setembro, celebramos a festa de Cosme e Damião, tradição das religiões de matriz afro-brasileira que marca um dos momentos mais populares do nosso país. Aqui, eles são associados aos Ibejis e Nvunjis, orixás gêmeos da alegria e da infância no Candomblé Ketu e Angola, respectivamente e à linha dos Erês na Umbanda. Muitas pessoas e terreiros preparam saquinhos com balas, pirulitos e chocolates para entregar às crianças em cumprimento de promessas. É um momento perfeito para refletirmos: como está a nossa criança interior? Já pensou nisso? Convido você a essa reflexão.
Nossa criança interior é aquela parte do inconsciente que guarda memórias, emoções, traumas, mas também a espontaneidade e a criatividade que muitas vezes deixamos de lado. Ela nos ajuda a lidar com sentimentos e a nos relacionar na vida adulta, tornando tudo mais leve. É ela que traz a capacidade de brincar, a intuição, o entusiasmo e a criatividade. Mas quando essa criança está ferida, ela reage com medo exagerado, carência, raiva ou autossabotagem sempre que nos sentimos ameaçados ou rejeitados, repetindo dores antigas.
Quando cuidamos da nossa criança interna, exercitamos a capacidade de reconhecer feridas do passado e entender comportamentos complicados do presente. Dar atenção a ela permite que vivamos com mais leveza e menos peso, deixando de carregar fardos que não são nossos. Permita-se momentos de lazer e alegria, resgatando o prazer de viver. Mas como saber se nossa criança interior está ferida? Se você tem medo extremo da rejeição, necessidade constante de agradar para se sentir aceito, reações desproporcionais como raiva intensa ou choro compulsivo por motivos pequenos, dificuldade em impor limites dizendo "sim" querendo dizer "não" por medo do abandono, autocrítica severa com uma voz interna que diz que você não é bom ou capaz o suficiente, ou ainda bloqueio criativo e dificuldade extrema em relaxar, brincar ou fazer algo apenas por prazer, esses são sinais claros.
Ah, mas podemos fazer exercícios práticos para acolher nossa criança interior. Escreva uma carta à mão para o seu "eu" do passado, se possível escolha uma idade específica em que viveu algo difícil. Diga a ela que está segura agora, legitime seus sentimentos dizendo "Eu sinto muito que você tenha passado por aquilo". E, por fim, assuma a responsabilidade dizendo "Agora eu sou o adulto e vou proteger você". Quando nos expressamos em voz alta, espalhamos nossos pensamentos para o Universo. O poder da palavra é incomparável.
Outro exercício visual que cria empatia por si mesmo e diminui a autocrítica é deixar uma foto sua de quando era criança em um lugar bem visível ou no celular. Olhe para ela e pergunte mentalmente "Do que você está precisando hoje?". Reserve alguns momentos na semana para fazer algo apenas pelo prazer de fazer, por exemplo, você pode voltar a desenhar, pintar, dançar, cantar, andar de bicicleta, assistir a um filme que você amava na infância ou comer algo que traga memórias afetivas. E quando sentir uma emoção muito forte, como raiva intensa ou insegurança inesperada, feche os olhos e respire fundo por dez vezes. Entenda que quem está reagindo ali não é o seu eu adulto de hoje, mas a sua criança assustada. Imagine-se abraçando essa criança e dizendo "Está tudo bem sentir isso, eu estou aqui com você". Assim, fazendo esses exercícios e cuidando sempre de sua criança interior, sua vida tenderá a ser mais leve e você se sentirá mais feliz. E procure amar incondicionalmente a todas, todos e todes.