Escalada de feminicídios acende alerta após casos em MG e Goiás
Capitã da PMMG Michele Leão Azevedo (esquerda) e professora Valdirene Vaz Clemente foram mortas por seus companheiros nesta semana - (crédito: PMMG e Redes Sociais)
Casos registrados em Minas Gerais e Goiás reacendem o alerta para a violência de gênero, enquanto investigações apontam histórico de agressões, medidas protetivas e relacionamentos marcados por conflitos; levantamento mostra que Brasil bateu recorde de feminicídios em 2025
A sequência de casos de violência contra mulheres registrada nos últimos dias em Minas Gerais e Goiás reforçou o alerta para a persistência dos feminicídios no país. Entre as ocorrências está a morte da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais Michele Leão Azevedo, de 41 anos, investigada como feminicídio, além do assassinato da professora Valdirene Vaz Clemente, de 41 anos, em Bom Jesus de Goiás.
Os episódios se somam a estatísticas que apontam crescimento da violência de gênero e ao maior número de feminicídios da última década no Brasil.
A defesa do sargento reconhece que o relacionamento era marcado por constantes desentendimentos e reconciliações, mas sustenta que esse histórico, por si só, não comprova a ocorrência de um crime. O advogado Gustavo Nepomuceno Lopes afirmou que qualquer conclusão deve aguardar os laudos periciais e demais provas técnicas produzidas durante o inquérito. Segundo ele, a estratégia da defesa ainda não foi definida e, neste momento, a prioridade é acompanhar a audiência de custódia, que decidirá sobre a manutenção da prisão preventiva ou eventual concessão de liberdade provisória ao policial.
O caso ganhou novos contornos após a divulgação de informações sobre o histórico do investigado. O sargento já havia sido preso anteriormente por dirigir sob efeito de álcool e também responde por registros envolvendo violência doméstica contra uma ex-companheira, incluindo descumprimento de medidas protetivas. Paralelamente, moradores relataram que o casal protagonizava discussões frequentes e festas constantes no apartamento onde viviam, elementos que agora integram o conjunto de informações analisadas pelos investigadores.
Em Goiás, outro caso chocou o país. A professora Valdirene Vaz Clemente foi morta a tiros pelo ex-marido ao deixar uma igreja em Bom Jesus de Goiás, no sul do estado. Segundo a Polícia Civil, ela havia denunciado o ex-companheiro por ameaças e agressões cerca de um mês antes do crime e obteve medida protetiva. Após o assassinato, o autor dos disparos atirou contra a própria cabeça e morreu. A comunidade religiosa frequentada pela vítima divulgou nota de pesar e pediu orações pelos filhos, familiares e amigos da professora.
Os dois episódios refletem um cenário nacional preocupante. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em março deste ano, mostram que o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde a criação da tipificação penal, em 2015, representando aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em Minas Gerais, levantamento da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública aponta 148 casos de feminicídios consumados e tentados entre janeiro e maio deste ano — apenas um a menos que no mesmo período de 2025. Foram 63 assassinatos consumados e 85 tentativas, o equivalente a quase 13 mulheres vítimas de feminicídio por mês no estado. Especialistas alertam que esses crimes representam a etapa final de um ciclo de violência que, na maioria das vezes, começa com ameaças, agressões psicológicas, controle e violência doméstica. Apenas entre janeiro e maio deste ano, mais de 70 mil mulheres procuraram as autoridades mineiras para denunciar algum tipo de violência, evidenciando que o enfrentamento ao feminicídio depende da identificação precoce dos sinais de abuso, da efetividade das medidas protetivas e da atuação integrada das redes de proteção às vítimas.