Ex-presidente demitido da ABDI diz ter avisado Guaranys de irregularidades

Gustavo Ferreira foi demitido por Bolsonaro em 4 de setembro Reprodução /Instagram

O secretário Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, fez pedidos de despesas injustificáveis à ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) disse ao Poder360 o presidente demitido da agência, Guto Ferreira. Costa é também presidente do Conselho Deliberativo da ABDI.

Ferreira disse que as avaliações de advogados da agência eram de que as solicitações, se atendidas, infringiriam leis. Ele apresentou cópias de mensagens de WhatsApp sobre solicitação de emissão da passagem que diz terem sido trocadas entre ele e Costa em maio. Outro pedido irregular feito por Costa, segundo Ferreira, esse em março, foi de que a agência alugasse 1 andar de edifício do Banco do Brasil na avenida Paulista, em São Paulo, a ser compartilhado pela ABDI e pela Secretaria de Costa.

Ferreira também forneceu cópias de mensagens de Whatsapp que disse terem sido enviadas ao secretário-executivo do Ministério da Economia, Marcelo Guaranys, no qual relatou “pedidos não republicanos” por parte do secretário de Competitividade, sem, contudo especificar o que seriam.

Poder360 procurou Guaranys e Costa por meio da assessoria de imprensa do Ministério da Economia para que comentassem as declarações de Ferreira e as mensagens que ele apresentou. Não houve resposta.

As mensagens sobre a passagem aérea fornecidas mostram que Costa queria ir a Dubai com despesas pagas pela ABDI. Segundo Ferreira, 1 convênio entre a agência e o Ministério da Economia estabelecia que poderia ser paga a viagem de 1 representante da pasta a evento da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) na Austrália.

Costa pediu, segundo Ferreira, que fosse escolhido o trajeto via Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, embora não fosse a opção mais barata. Depois, ainda de acordo com o relato de Ferreira, pediu que a parada na cidade fosse de 2 dias, sob a alegação de que seria do interesse do Ministério da Economia. Essa escala não se enquadrava no convênio, segundo Ferreira. As mensagens mostram divergências entre os 2 quanto ao aspecto jurídico. Ferreira recomendou que Costa pedisse avaliação à PGFN (Procuradoria-Gera da Fazenda Nacional). A passagem acabou por não ser emitida.

Eis as conversas:

Na mensagem que disse ter enviado a Guaranys, em data não especificada, Ferreira chamou de “canalhice” reportagem “plantada” por Costa em veículo de comunicação. Mencionou O Antagonista, sem deixar claro, porém, se o site publicou o texto mencionado. Disse também que havia “psicopatia” por parte de Costa e que as reações dele se deviam ao fato de lhe terem sido negados duas vezes “coisas que seriam questionadas na administração pública porque a nosso ver não são republicanas”.

Formado em jornalismo e especialista em inovação, Ferreira foi escolhido para a ABDI em junho de 2016, no governo de Michel Temer, pelo então ministro da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, hoje vice-presidente da Câmara dos Deputados (Republicanos-SP).

Ferreira disse ter ficado surpreso ao ser mantido no cargo no atual governo. Atribuiu a decisão ao fato de ter colaborado no ano passado na preparação do programa do então candidato Bolsonaro, a pedido de Costa, que trabalhava na campanha. A ABDI tem orçamento anual de R$ 89 milhões, com recursos provenientes do Sistema S, a partir de contribuições sobre a folha de salários de empresas industriais. Há 36 funcionários na sede da agência, em Brasília.

Neste ano, quando Costa já era secretário e começaram as desavenças, Ferreira disse ter pensado que seria demitido. “Isso não aconteceu porque atribuíram a mim 1 poder que nunca tive sobre a bancada do PRB na Câmara”, disse em alusão ao partido rebatizado Republicanos em agosto. “Como não podiam correr o risco de que a reforma da Previdência fosse derrubada na Câmara, não quiseram mexer comigo”.

O convívio com Costa se deteriorou, porém. Em 25 de maio, o secretário excluiu Ferreira de 1 grupo de WhatsApp da área que comanda. “Não pedi demissão porque virou uma espécie de game para mim. E a minha equipe insistia para que eu resistisse, para que só saísse quando fosse demitido pelo presidente”, afirmou. Leitor de histórias em quadrinhos, compara-se ao Capitão América. “Ele não tem superpoderes. Sua maior força está nos princípios.”

Ferreira diz ter recebido convites para trabalhar em empresas e pretende continuar morando em Brasília

Fonte: Poder 360