Ricardo Mendes: ‘Lavar as mãos é essencial para evitar não só o coronavírus’

Secretário-adjunto de Saúde lembra que o DF não tem qualquer caso confirmado da doença, mas alerta para o hábito necessário no combate à proliferação do vírus

RENATA MOURA, DA AGÊNCIA BRASÍLIA
Ricardo Tavares Mendes: “É importante ficar claro que a vacina da gripe não previne o coronavírus” | Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília

Com a confirmação do primeiro caso de coronavírus no estado de São Paulo, a população brasiliense já começou a ficar preocupada com a possibilidade de a epidemia ter chegado ao Distrito Federal. Até o momento, 22 casos suspeitos foram descartados e outros cinco seguem sob a vigilância atenciosa da Secretaria de Saúde, que ainda providencia exames para detectar a presença do vírus.

“Por enquanto não registramos nenhum caso confirmado. Mas é importante que a população siga atenta à prevenção”, afirma o secretário-adjunto de Assistência à Saúde, Ricardo Tavares Mendes, em entrevista à Agência Brasília (veja em vídeo e leia a íntegra abaixo). Segundo ele, a melhor forma de prevenção é lavar as mãos. “Não só para o coronavírus, mas para todas as doenças virais, lavar as mãos é essencial”, acrescenta Ricardo.

“Nosso plano de contingenciamento do coronavírus foi muito elogiado pelo Ministério da Saúde, porque fizemos um plano casado da assistência à saúde com o perfil epidemiológico”Ricardo Mendes, secretário-adjunto de Saúde

O médico destaca que o DF já tem um plano de contingenciamento da doença e vai trabalhar com pelo menos três grandes centros de referência em doenças virais: Hospital de Base, Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e Hospital Materno Infantil da Asa Sul (Hmib). Ele esclarece ainda que nem todos os pacientes detectados com o vírus precisam de internação hospitalar, e tranquiliza: “Já sabemos que quase todos os casos que evoluíram para mortalidade são pacientes que tinham alguma outra doença de base crônica”.

Veja em vídeo:

CONFIRA A ENTREVISTA:

O que é o coronavírus?

O coronavírus é uma cepa de vírus existente no mundo inteiro. Em 2004, tivemos uma síndrome de angústia respiratória causada por um tipo de coronavírus. Em 2014, tivemos outra infecção deste mesmo vírus, que se espalhou pelo mundo inteiro. E, agora, identificamos uma nova cepa de coronavírus, que é o Covid-19. Os vírus têm essa capacidade de fazer mutação e, por isso, a gente pode se infectar mais de uma vez. Às vezes você está gripado e se imuniza para um tipo de vírus da Influenza. Mas aquele vírus pode sofrer mutação e, então, você se torna suscetível a pegar uma nova gripe. Quando a gente toma vacina de gripe, por exemplo, há um grupo de vírus para o qual você fique imune. Mas não para todos, porque não estão todos naquela vacina.

É uma doença respiratória?

É uma doença gripal, que tem uma predominância em afetar o sistema respiratório. O paciente contaminado pode apresentar desconforto respiratório, tosse, batimento de asa de nariz associado a febre.

Como diferenciar o coronavírus de uma gripe comum?

Só com perfil epidemiológico. Aliás, temos uma Subsecretaria de Vigilância Epidemiológica muito atuante no Distrito Federal. Tanto que o nosso plano de contingenciamento do coronavírus foi muito elogiado pelo Ministério da Saúde, porque fizemos um plano casado da assistência à saúde com o perfil epidemiológico. Para você ter ideia, os técnicos da vigilância epidemiológica entraram em contato com todos os casos suspeitos registrados no DF, verificaram a situação e o quadro de cada um. Por isso conseguimos excluir os 22 casos notificados, porque não se quadravam no perfil epidemiológico. O que temos agora são cinco casos suspeitos, mas ainda sem confirmação. Por enquanto não registramos nenhum caso aqui. Mas é importante que a população siga atenta à prevenção

Quem é suspeito de estar com o coronavírus?

Paciente com quadro gripal, que passou os últimos dias por algum dos países cujos casos identificados estão confirmados, como China, Itália e Estados Unidos, entre outros. Mas, do ponto de vista de Brasil, o primeiro caso registrado é de São Paulo, de um paciente que veio da Itália. Então, tem que ter histórico do paciente, ele precisa ter tido contato com alguém que tem um vírus, ou passado em alguma região onde o coronavírus está circulando. E, claro, a pessoa precisa apresentar o desconforto respiratório, tosse e batimento de asa de nariz associados a febre.

Há um grupo de risco para o coronavírus?

O coronavírus, na verdade, é um vírus que pode atingir qualquer pessoa, qualquer indivíduo, desde o recém-nascido ao idoso. Agora, é claro, que os mais suscetíveis e aqueles que têm um maior risco de evoluir para uma infecção mais grave são os pacientes do grupo de risco. Ou seja: idosos, diabéticos, crianças de baixo peso e desnutridas e pessoas imunodeprimidas. Já sabemos que quase todos os casos que evoluíram para mortalidade são pacientes que tinham alguma outra doença de base crônica.

Existe vacina para o coronavírus?

Não. Inclusive, o Ministério da Saúde estuda a possibilidade de antecipar a vacina da gripe neste ano. Mas é importante ficar claro que a vacina da gripe não previne o coronavírus, mas ajuda no diagnóstico diferenciado. Porque se eu atendo um paciente e eu sei que ele foi vacinado contra gripe, ele tem pelo 95% de chance de não ter uma Influenza, por exemplo. Já para o paciente que não tomou a vacina, um dos diagnósticos diferenciais é uma gripe comum, resultante dos vírus que já temos circulantes e atuantes por aí.

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Quando a pessoa deve realmente buscar o hospital?

Se se sentir mal, com febre, tosse e dificuldade para respirar deve procurar uma unidade básica de saúde. Mas o importante é a prevenção. O brasileiro tem fama quando viaja para o exterior de tomar muito banho. Somos até motivo de chacota na Europa, porque adoramos tomar um banho. Vivemos num país tropical e esse hábito é comum, mas, infelizmente, a gente esquece muito de lavar as mãos. Não só para o coronavírus, mas para todas as doenças virais, lavar as mãos é essencial. Várias vezes por dia. Se for ao banheiro, se for alimentar, se for levar as mãos aos olhos, aos lábios, à boca, depois de apertar a mão de alguém. São hábitos que precisamos reforçar no nosso dia a dia. Evitar tocar corrimões em locais públicos de muita circulação e, se não for possível, lavar com água e sabão. Passar o álcool gel 70% é importante também.

Como o vírus é transmitido?

O vírus é transmitido na gotícula da saliva e dura em média 24 horas. Não sabemos ainda como ele se comporta no Brasil, porque aqui é um país tropical com clima diferenciado, e a avaliação que se tem de outros países pode não valer para a gente. É um vírus extremamente novo o Convid-19.

Como é o tratamento de quem está com coronavírus?

Não existe medicamento nenhum específico para combater o vírus. O tratamento é sintomático. Ou seja, tratam-se os sintomas apenas. É repouso, isolamento e medicamentos se febre e tosse. Depois de curado, o que deve acontecer entre 5 a 7 dias, a pessoa precisa ficar isolada por 14 dias para evitar que o vírus se espalhe. É importante dizer que nem todo paciente com coronavírus tem indicação de internação hospitalar. Isso foi feito na China, e apenas gerou uma sobrecarga no sistema de saúde.

Por que a quarentena é de 14 dias?

Quarentena é o termo que utilizamos para qualquer isolamento necessário. É o período que a pessoa pode transmitir o vírus e varia de doença para doença. No caso do coronavírus são 14 dias. É o prazo que a pessoa pode estar em expelindo gotículas infectadas com vírus.

Qual o comportamento ideal para não se espalhar um vírus?

O ideal é que a pessoa pegue um papel para tossir cima dele. Se não tiver coloque o cotovelo sobre o nariz para tossir.  Evite colocar a mão na frente da tosse para que você não transfira o vírus para outros objetos e assim, possa contaminar outras pessoas.

O senhor indica o uso das máscaras?

Não há indicação nenhuma no Brasil do uso de máscaras. A máscara é apenas para o paciente que chegou infectado; para as pessoas, que tiverem próximas daquelas em tratamento; e, ainda, para os profissionais de saúde no atendimento ao público. Mas não há motivo de pânico, nem de sair correndo para comprar máscaras. O que se deve é evitar locais aglomerados, e reforço: lavar as mãos com água e sabão.

Rússia e Tailândia não registram casos de contaminação há duas semanas, lembra o subsecretário | Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília

Há uma série de “dicas” na internet para evitar ou até mesmo curar quem se infectou com o coronavírus. Há instruções para uso de chá de folha de abacate, vitamina C, Vitamina D…

Claro que a cultura popular tem seu valor. O brasileiro tem no perfil genético um pouco de médico. Eu digo sempre que ajuda, não vai matar o vírus. Mas é claro que um chazinho de limão com mel pode ajudar a pessoa a fortalecer a imunidade. A vitamina C, por exemplo, ajuda nesse processo da imunidade. Mas não é tomando a vitamina C que você vai matar o vírus. Apenas vai ajudar na imunidade.

Quem está com viagem marcada para o exterior, deve ou não viajar?

Primeira coisa é avaliar qual o país está indo. Se for um país onde há um número elevado de casos, eu aconselho a avaliar se realmente vale a pena. É uma viagem de trabalho? Não tem como evitar? Vá e tome todas as precauções. Lave bem as mãos, leve álcool em gel 70%, evite tocar em estruturas de ambientes públicos. Agora, se for uma viagem de férias, evitável, eu sugiro que desmarque e fique por aqui. Sei que é ruim desmarcar uma viagem, mas estamos com uma infecção que está se expandindo em todo mundo.

Quando estaremos livres dessa epidemia?

A tendência é que o vírus diminua com tempo. Todos os estudos mostram que em dois, três meses a gente saia desse quadro de epidemia que está ocorrendo. Como aconteceu nos dois outros anos, que esse vírus foi identificado. Alguns países que tiveram uma infecção grande por coronavírus, já não estão mostrando casos novos detectados há mais de duas semanas. A Rússia é um deles, Tailândia é outro. Ou seja, já estabilizou por lá. Significa que o vírus já está mais ou menos controlado naquela região.

Brasília está preparada para o coronavírus?

Sim. A gente lançou o nosso plano de contingenciamento. Já definimos os hospitais de referência. Os pacientes sem comorbidades, não imunodeprimidos e adultos serão atendidos no Hran. Crianças de 13 anos, 11 meses e 29 dias e grávidas, no Hmib. E os pacientes que estão tomando quimioterapia, em tratamento de câncer e AIDS, a unidade de referência será o Hospital de Base. Mas lembramos que nem todos os casos de coronavírus são indicação de internação hospitalar. Se está bem, estável e não apresenta nenhum sinal grave, a orientação é ficar em casa de repouso em isolamento, fazendo acompanhamento pela equipe de atenção primária da rede pública de saúde. O exame que detecta o vírus é feito pelo nosso Lacen, que realiza um painel viral. Na verdade, um exame minucioso que verifica a presença de 11 vírus, entre eles o coronavírus.

Postagem: http://egnews.com.br

Fonte: Agência Brasilia

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