Quando o feminicida é o próprio filho

As toalhas continuam penduradas no varal na parte da frente da casa onde Iran Francisca de Vasconcelos, 68 anos, morava. Não houve tempo para juntá-las. Porta e janela estão abertas, escancaradas, a última, com vidro quebrado. É possível ver a cadeira azul na qual a dona de casa costumava sentar na varanda. Dois meses após ser cenário de um crime que chocou a vizinhança e a família, o local segue quase intocado.

Latas de tintas posicionadas na porta de entrada podem indicar que Iran estava perto de conseguir realizar o único sonho lembrado e mencionado por uma das irmãs: arrumar sua casa.

O feminicídio ainda é relacionado a cônjuges — por serem responsáveis por 70% dos casos e tentativas. No entanto, o triste fim de Iran não envolve crises de ciúmes nem um companheiro violento. Depois de muitas brigas e ameaças, na manhã do dia 20 de agosto de 2019, Sidevan dos Santos Vasconcelos, 37 anos, matou a própria mãe.

Sobrinho da vítima, Adeilton Ferreira de Oliveira mora bem próximo e estava em casa com o filho pequeno quando o primo chegou, por volta das 8h. Conversando normalmente, Sidevan confessou o assassinato. “Ele estava tranquilo e só me disse: ‘Eu matei a minha mãe com uma picareta. Vai logo e chama o IML porque já já o corpo vai começar a feder’. Eu não acreditei, achei que estava inventando coisa. Mandei áudio para uma das minhas tias contando e ela me pediu para ir lá dar uma olhada no que estava acontecendo.”

Sidevan já havia sido internado algumas vezes no antigo Hospital Pronto Atendimento Psiquiátrico (HPAP), agora Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de onde fugia com frequência. Ninguém soube dizer ao certo seu diagnóstico, mas uma coisa foi consenso entre os vizinhos, conhecidos e familiares ouvidos: o homem tem transtorno psicológico.

Em um dos áudios, a irmã da vítima chega a duvidar do acontecido, alegando que Sidevan estaria internado no HSVP, logo não poderia ter cometido o crime.

Duas horas depois, Adeilton chegou na casa e Sidevan ouvia música na porta. “Fui entrando e vi o corpo no chão da sala, com um lençol jogado por cima. Ele matou na cozinha e saiu arrastando. Fiquei muito nervoso, tremia, quase não tive coragem de levantar o pano para ver se era ela mesmo. A cabeça estava cheia de sangue. Só gritei: ‘Seu desgraçado, você matou minha tia’. Ele correu”, relembra.

Uma viatura passava pelo local no momento e Adeilton relatou o ocorrido aos policiais, que capturaram o assassino caminhando nas proximidades. De acordo com os militares, ele não teria resistido à prisão. A arma do crime nunca foi encontrada.

No dia do feminicídio, Sidevan também colocou fogo no cachorro da mãe. Um vizinho socorreu o animal e está cuidando dele. Pouco antes do ocorrido, o filho foi visto segurando um vestido de Iran, enquanto comprava gasolina.

Infografico

Convivência

A rua de Iran Francisca em Taguatinga, na região conhecida como Chaparral, é tida como tranquila por moradores. Na frente de sua casa, local do crime bárbaro, meninos jogam futebol em uma quadra esportiva, vizinhas conversam com seus portões entreabertos, estudantes circulam após saírem do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 21 – a menos de 100 metros da residência e onde Sidevan estudou.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Sidevan morava perto do local do crime e estudou no Centro de Ensino Fundamental (CEF) 21
Sidevan morava perto do local do crime e estudou no Centro de Ensino Fundamental (CEF) 21
Rafaela Felicciano/Metrópoles
Na frente do local do crime bárbaro, meninos jogam futebol em uma quadra esportiva
Na frente do local do crime bárbaro, meninos jogam futebol em uma quadra esportiva

Iran era viúva. O marido se chamava Luiz, mas era conhecido na vizinhança como Paraíba. Morreu engasgado em outubro de 2018, na mesma casa em que a esposa foi assassinada. O casal morava com os dois filhos, antes de o mais velho casar e o mais novo ficar no HSVP, entre internações e fugas. O primogênito foi procurado para falar sobre a mãe, mas não respondeu até o fechamento desta matéria.

Apesar de residirem há muito tempo no mesmo local, vizinhos não conheciam bem a vítima. Não sabem muito sobre a dona de casa, sua rotina, história de vida, nada. São unânimes: era uma senhora bem recolhida.

Um comerciante, que preferiu não se identificar, só via Iran sair de casa para catar coisas no lixo. “Quase não ia para lugar nenhum. Tinha pouco movimento de visitas no local, mas também não ficava reparando. Ela não era de dar papo para ninguém”, conta.

Desde 1997, Geraldo Evandro da Silva, 52 anos, é proprietário de um comércio na esquina da rua em que família morava. Ele relata que o casal de idosos era tranquilo. O marido fazia as compras e saia mais de casa. Era muito católico e constantemente ia à igreja. Costumava levar o filho mais novo para a feira de Ceilândia Centro, onde vendia roupas e cintos.

Arquivo Pessoal
Sidevan já havia sido internado no HSVP, antigo HPAP, algumas vezes
Sidevan já havia sido internado no HSVP, antigo HPAP, algumas vezes

Sobre a senhora, Geraldo não sabe tanto. Apenas mais um a falar que “Iran era na dela e não conversava muito”. Quando o assunto é Sidevan, a história muda. “Ele realmente era um homem com necessidades especiais. Posso dizer que ele se transformou com uns 18 anos, até então era normal. Estou nessa escola aí [aponta para o CEF 21], junto com o meu filho”, conta.

O comerciante lembra que seis meses antes de o pai morrer, Sidevan ficou agressivo. Chegou a colocar fogo na casa com os pais dentro. Os bombeiros foram chamados e apagaram o princípio de incêndio. Ele também era conhecido por perturbar os estabelecimentos da região. No mercado de Geraldo, por exemplo, costumava comprar itens, usá-los e tentar devolvê-los.

Quatro dias antes do crime, chegou agindo de forma estranha, usando um casaco com capuz e jaleco por cima. Fazia muito calor e o comerciante ficou apreensivo, resolveu pedir para que Sidevan saísse do local. Foi então que ouviu como resposta: “Você tem medo de eu te matar, né?”.

Mesmo com todos esses fatos, Geraldo jamais pensou que uma tragédia assim pudesse acontecer com a família que morava perto do seu comércio.

“Foi um choque, uma surpresa. Nunca imaginei que ele seria capaz de algo tão desumano”

Geraldo da Silva, comerciante

Um morador das redondezas, que não quis ser identificado, lembrou de quando Sidevan roubou a calcinha de uma vizinha. O acessório íntimo estava secando no varal. Em outra ocasião, queria fazer xixi na porta das casas. Costumava xingar, ameaçar e bater nas pessoas. Já sobre Iran, ele recorda apenas que era tranquila e saia para procurar o filho, muitas vezes de madrugada, quando o mesmo sumia.

Outro fato é lembrado por uma vizinha. Sidevan teria tentado passar o pênis em mulheres que transitavam na rua e os moradores tentaram linchá-lo. Na época, o pai socorreu o filho.

O histórico de agressões era antigo. O caçula já havia batido e até roubado a mãe outras vezes. A família sabia, mas, de acordo com parentes, não tinha muito o que fazer. Em 2017, Iran Francisca fez uma ocorrência de Maria da Penha contra o filho na 12ª DP. Sidevan pegou R$ 10 mil da mãe e, quando ela pediu o dinheiro de volta, ele a agrediu.

Mãe e filho se davam bem quando ele ainda não apresentava os transtornos mentais. De acordo com uma das irmãs de Iran, havia uns anos que ela costumava vender bebidas nos blocos de Carnaval da cidade e Sidevan sempre a acompanhava.

Segundo parentes, Sidevan roubava a mãe desde os 12 anos. Alguns meses antes do crime, teria pegado o celular de Iran. Ela precisava esconder seu dinheiro, mas ele sempre encontrava. Uma vez enterrou no quintal, outra colocou dentro de uma parede, nada adiantava. Para conseguir a senha do cartão, Sidevan chegou a apertar o pescoço da mãe, que ficou bastante machucada. Na ocasião, o pai estava com familiares em Planaltina. A família não prestou queixa por medo.

Foi uma irmã de Iran que levou Sidevan pela primeira vez ao HSVP. Tanto as internações quanto as fugas eram comuns. Por sua condição, recebia um auxílio do governo e sempre saia escondido do hospital no dia em que o dinheiro caia na conta. Ninguém conseguia evitar as escapadas. Vizinhos contaram que ele costumava misturar bebidas alcoólicas com remédios controlados e teria sido visto usando drogas.

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Também teria o hábito de pegar a aposentadoria do pai (depositada na conta da mãe). Gostava de comprar coisas boas e, para isso, usava toda renda da família. Iran chegou a se hospedar um mês na casa de uma das irmãs, pois não tinha dinheiro para se alimentar. Depois, começou a bater ponto no Hospital da Ceilândia, onde havia distribuição de sopa. Uma das irmãs relembra como Iran estava magrinha na época da morte.

Quando o filho não estava no hospital psiquiátrico, ia à casa da mãe fazer ameaças. A Secretaria de Saúde informou que, se ocorrerem fugas de pacientes, a família é imediatamente acionada. São feitas buscas nas áreas próximas ao local e também é registrado boletim de ocorrência na delegacia. A equipe de segurança do HSVP conta com vigilantes dia e noite. O órgão ressalta ainda que não há como obrigar um interno a manter o tratamento nem a permanecer na unidade.

Vida sofrida

Primogênita de sete filhas, Iran Francisca desembarcou em Brasília aos 25 anos. Baiana de Barreirinhas, veio para a capital acompanhada de uma das irmãs com a esperança de deixar a pobreza para trás. Ao chegar aqui, trabalhou como empregada doméstica — destino seguido por quase todas as outras mulheres da família ao se mudarem para o DF. O pai morreu na Bahia e a mãe veio ficar com as filhas.

Em Brasília, conheceu o marido, um homem bom que a tratava muito bem, segundo parentes. Os dois eram companheiros e, quando Luiz sofreu um acidente que o debilitou, foi a esposa quem tomou conta dele e não saiu do seu lado. Os partos dos filhos foram difíceis, as crianças eram enormes. Uma delas nasceu com quase 6 kg.

Por ser um caso onde vítima e assassino são da mesma família, nenhuma das irmãs ou parentes ouvidos quiseram se identificar. Não existem muitos registros fotográficos deles juntos, o costume de tirar fotos era privilégio dos ricos, como uma das irmãs coloca. A ligação entre as sete mulheres ficou mais forte depois que todas estavam estabelecidas em Brasília. Antes disso, tudo era difícil.

Iran tinha o costume de ajudar as irmãs quando podia, aliás, uma zelava pela outra. Ela queria fazer mais pelas mulheres da família e sempre deixava isso bem claro. Também teria comprado um carro para o filho mais velho trabalhar como motorista de aplicativo.

Antes de ter a vida ceifada, a mulher que gostava de ajudar os outros estava prestes a ser ajudada pelo serviço social e iria conseguir realizar o único sonho compartilhado em voz alta com as irmãs: arrumar sua casa.

“Sofrida demais a Iran. Não sei se ela teve grandes alegrias, isso é triste”, desabafa uma das irmãs.

Homenagem póstuma feita na página de uma parente relembra que esta não é a primeira tragédia a atingir uma mulher da família. Em junho de 2015, a sobrinha-neta de Iran, Emily Cristiny de Almeida da Silva, 14 anos, foi estuprada e morta de forma brutal.

Reprodução
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Caso diferente de feminicídio

De acordo com o delegado adjunto da 12ª DP, Paulo Henrique Alves de Almeida: “Esse caso foge um pouco das outras ocorrências de feminicídio porque o assassino tem um transtorno”.

Dez dias antes do crime, Sidevan fugiu do HSVP e foi para a delegacia. Um familiar já havia registrado a fuga na DP. Ainda com o uniforme da instituição, ele urinou na recepção do local e dizia coisas sem sentido. Afirmava que estava sendo perseguido e que o haviam roubado. Outra ocorrência de fuga foi realizada em março de 2018.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
O delegado adjunto Paulo Henrique de Almeida estava na 12° DP no dia do crime
Crédito: Rafaela Felicciano/Metrópoles

No dia do crime, o delegado adjunto estava na 12ª e disse que o assassino estava muito nervoso. “Ele alegava que a mãe tinha subtraído todo o seu dinheiro. Sidevan dizia ser dono do Pão de Açúcar e do Carrefour e que Iran teria feito desvios enormes, por isso a matou.”

Para o delegado, Sidevan tem total noção de ter matado alguém. O feminicida está no Centro de Detenção Provisória (CDP), na Papuda, onde espera julgamento.

“Relacionamento abusivo entre mãe e filho é mais raro e choca. Ainda assim, existe aquela desculpa de que ‘vai melhorar’, ‘foi porque bebeu’. A verdade é que não tem justificativa para agressão física, moral ou psicológica. Ninguém é obrigado a conviver com alguém destrutivo e violento. Por isso, encorajamos as pessoas a denunciarem”, defende Paulo Henrique Alves de Almeida.

Um parente disse que Sidevan está sendo medicado no sistema carcerário e mostra arrependimento pelo crime contra a mãe. Ele alega que assassinou Iran porque assistiu a um programa de terror e vozes em sua cabeça falaram coisas ruins.

“A família tem rancor, quem não teria? Estamos falando do próprio filho, não é nem um estranho. Queremos justiça.”

Bruna Sabarense

Bruna Sabarense

Formada em jornalismo pelo Icesp, trabalhou nas redações do Jornal de Brasília, TV Bandeirantes (Band) e na editoria de Vida & Estilo do portal Metrópoles. Na Oscip Escola Brasil atuou como produtora, redatora e repórter de rádio em projetos para os Institutos Federais e no Selo Unicef Município Aprovado. Já como assessora de imprensa foi chefe das assessorias de comunicação da Administração Regional de São Sebastião e da Secretaria das Cidades do Distrito Federal, tendo atuado também na Subsecretaria de Relações com a Imprensa (Secretaria de Comunicação do GDF).

Elas por elas

Neste 2019, o Metrópoles inicia projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

Até sexta-feira (25/10/2019), 12.637 mulheres do DF já procuraram delegacias de polícia para relatar abusos, ameaças e agressões que vêm sofrendo por parte de maridos, companheiros, namorados ou pessoas com quem um dia se relacionaram. Já foram registrados 27 feminicídios. Com base em informações da PCDF, apenas uma pequena parte das mulheres que vivenciam situações de violência rompe o silêncio para se proteger.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

Veja os perfis anteriores

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Postagem: http://egnews.com.br
Fonte: Metropoles