A história de Joyce, a jovem de 21 anos assassinada pelo namorado traficante

Joyce de Oliveira Azevedo, vítima de feminicídio aos 21 anos, foi – durante mais da metade do último mês – um nome sem rosto para mim, a me provocar perguntas, sempre duras e com poucas resposta. Não havia fotos dela, sequer na polícia. O endereço fornecido pela mãe, Claudiane Azevedo de Oliveira, no Recanto das Emas, não era e nunca foi das duas. Estive lá, acompanhada da repórter fotográfica do Metrópoles, Rafaela Felicciano, no começo de uma busca quase obsessiva.

Fomos também ao local do crime na QSC, em Taguatinga, um conhecido ponto de venda e consumo de drogas. Ali, encontramos um barraco de madeirite cheio de entulhos na frente, onde os usuários se reúnem. O endereço também foi cenário do tiro dado em uma noite, certamente fria, do mês de julho, que dizimou a vida de Joyce. Lá, ouvimos relatos de vizinhos sobre meninas que frequentam o lugar e são “todas iguais” aos olhos da maior parte das pessoas.

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O fato de o irmão do chefe da boca ter nos enviado para conversar com alguns moradores, dando o nome de cada um deles, e informado que não conhecia Joyce porque acabara de sair da prisão, certamente teve efeito de alheamento na memória dos que entrevistamos. É o que acontece onde o medo governa, pensei. Segui minha busca tentando compreender como Joyce chegou àquele barraco e por que saiu de lá morta, depois de ser atingida por Lucas Lisboa Dutra, de 23 anos, um namorado recente.

As testemunhas do crime, foram várias, prestaram depoimento à polícia e sumiram no mundo, deixando telefones inexistentes ou que não atendem. Todas elas estavam reunidas na boca quando Lucas começou a manusear a arma e apontá-la para diferentes pessoas ao redor. O único tiro efetuado pelo feminicida foi contra Joyce. Os que poderiam me contar detalhes a respeito do ocorrido ou da vítima integram o universo de usuários e pequenos traficantes de drogas – e, sem dúvida, não querem ser encontrados.

O autor do disparo, detido desde a semana do crime, responde à ação penal por roubo, em Águas Lindas (GO), onde vivia até recentemente. Lucas passou nove meses preso, preventivamente, e estava em liberdade há pouco tempo, morando de favor na casa de amigos. Uma de suas atividades favoritas, disse o delegado responsável pelo inquérito, era exibir o revólver de calibre 38 que matou Joyce.

Arquivo pessoal
Lucas Lisboa estava em liberdade há pouco tempo, respondia ação penal por roubo
Lucas Lisboa estava em liberdade há pouco tempo, respondia ação penal por roubo

A foto de Joyce, que consegui no último instante da apuração, mostra que Lucas talvez não estivesse errado em seu orgulho pela arma. A moça aparece segurando o revólver como um objeto de desejo, uma joia preciosa, quase um troféu. O machismo tão arraigado em nós, e na nossa estrutura de socialização, não deixa dúvida de que a maior conquista de uma mulher é um parceiro poderoso para chamar de seu – na periferia, as atividades ilícitas costumam ser a forma mais acessível para homens jovens alcançarem esse lugar de poder.

Maísa Campos Guimarães, uma das especialistas que entrevistei, integrante do Grupo de Estudos de Saúde Mental e Gênero do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), confirma que a atração por homens que detêm ou demonstram poder é uma armadilha comum para as mulheres de todas as classes e elemento recorrente em situações de violência de gênero.

Arquivo pessoal
Em uma das poucas fotos de Joyce, a jovem aparece segurando o revólver quase como um troféu
Em uma das poucas fotos de Joyce, a jovem aparece segurando o revólver quase como um troféu

Muro de silêncio

Na escola em que Joyce estava matriculada no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), desde 2018, em Taguatinga, e cursava o 7º ano do ensino fundamental, é comum não encontrar informações seguras sobre os pais ou os alunos nos contatos fornecidos, independentemente de eles terem ou não relações com o mundo ilícito. Faz parte da vida, nesse pedaço do Brasil, a incerteza sobre onde se vai morar ou mesmo dormir no dia seguinte.

Na sala da diretoria, exercida por três mulheres visivelmente comprometidas e preocupadas em fazer o melhor pelos estudantes, chama a atenção os televisores que mostram o monitoramento de câmeras, vigiando todos os ambientes internos e externos da escola, 24 horas por dia. Nas imagens, fica clara uma estrutura física bem cuidada e organizada, com professores em sala de aula, e mais carteiras vazias do que ocupadas.

Não é nada fácil manter alunos na escola quando eles têm mais de 15 anos, estão fora da idade certa para a série que cursam, muitos deles em liberdade assistida, alguns com tornozeleiras eletrônicas, outros ainda sem passagem pela polícia, mas com muito contato e experiência num mundo à parte, no qual os professores não conseguem penetrar.

“A gente não sabe nada da vida dos meninos. Eles não se abrem. No corredor, dá para pescar quem é amigo de quem. Mas é só isso”

Coordenadora do Ensino de Jovens e Adultos

Na diretoria, professores entram e saem, tentando lembrar de Joyce e me contar alguma coisa sobre a ex-aluna que me ajude a enxergar quem teria sido ela, em vida. Nada. Todos têm uma vaga lembrança da moça e se mostram muito envergonhados por isso. “A frequência dela era muito pequena e não destoava dos demais. Nunca causou problemas especiais por aqui”, justificam.

Ouço fragmentos de diálogos trocados entre docentes e coordenação e me vem uma sensação de conversas interrompidas, repetidamente, no mesmo lugar, como um muro de impotência que não conseguimos transpor, e que, se falasse, diria: “Como a gente orienta jovens cujas vidas são tão diferentes de tudo o que conhecemos e de quem temos medo por razões concretas e legítimas?”.

O olhar da diretora, no fundo dos meus olhos, é de compaixão e de dor, diante da minha busca de repórter que mais uma vez dá em nada. Porém, também da procura dela, muito mais desafiadora e cotidiana ao tentar encontrar jogos, atividades, algo que possa interessar aos alunos e fazê-los engrenar nas rotinas necessárias aos estudos.

Ilustração | Metrópoles

Dói pensar na impotência de quem só tem um diploma de ensino médio ou fundamental para oferecer depois de longos anos de dedicação, lutando contra as possibilidades atraentes do lado de fora: de uma vida curta, mas de aventura, paixões ardentes, adrenalina e sensação de poder. “Existe uma ideia muito forte nos jovens, especialmente a de que o amor louco, a paixão e o ciúme estão numa relação muito estreita com a violência”, ouço a especialista da UnB me dizer ao telefone durante a nossa entrevista dias antes, enquanto observo a vida na escola de Joyce.

Talvez por sentir tanto, na própria carne, a situação de violência e pobreza dos alunos, a diretora tenha a imagem de Joyce como uma menina muito franzina e magra, e de uma carência material marcante. O que não corresponde às fotos nas quais ela aparece como uma mulher muito bem feita de corpo, bastante vaidosa e ostentando a arma do namorado com a qual foi morta, como uma espécie de troféu.

Alguém me diz, num dado momento da apuração, vendo minha frustração pela falta de informações: “Por que você insiste nessa história? Conta outra, tem tantas por aí”. Pura verdade. Mas, talvez, essa valha a narrativa exatamente pela invisibilidade de sua personagem principal.

Filhos sem pai

No registro de nascimento de Joyce, não há o nome do pai. Outra marca comum entre jovens da periferia, mas não só. É uma realidade diretamente relacionada à desigualdade de gênero da nossa sociedade e à paternidade irresponsável, sem consequências: dois clássicos do machismo.

Anoto a ausência do pai como mais um componente claro de assimetria de gênero, no entanto, em meio a um mar de violências, esse é um agravante semelhante àquela pluma que, colocada no topo de uma pilha, derruba toda a estrutura. Pode ter sido o peso dela. Como também pode não ter sido.

Procuro o rastro da mãe, Claudiane, uma mulher cuja foto me marcou. Aos 35 anos, parece ter, no mínimo, 50 anos. Com um nó na boca do estômago, fico conjecturando o que teria a maltratado tanto, tão jovem. Nos registros do Cadastro Único da Assistência Social, conhecido como Cadúnico, encontro parte da resposta: a pobreza extrema.

A mãe de Joyce está entre as chefes de família com renda per capita inferior a meio salário mínimo – hoje, R$ 499 por pessoa, fato que coloca Claudiane abaixo da linha de pobreza.

Além da filha assassinada, que não consta mais na última atualização do cadastro, feita em setembro, Claudiane tem mais quatro filhos: Juracy, Agatha, Anna e Carlos, o mais velho de 18 anos e o mais novo de 13.

Em busca por registros de Joyce no Sistema de Saúde, encontro um de atropelamento, sofrido no início de 2019, para o qual forneceu endereço em Samambaia. Como a pancada foi leve, a liberação da jovem se deu no dia seguinte. E, em anos anteriores, atendimentos relacionados a queixas e dores inespecíficas, situações nas quais informou outro logradouro, em Águas Lindas. No Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, conhecido como CAPS AD, não há anotações de passagem dela ou da mãe.

Fora as ocorrências identificadas nos bancos de dados da Assistência Social, da Saúde e da Educação, a única confirmação da existência real de Joyce e de sua mãe é dada pela polícia, que viu o corpo de moça, e pela escola, que, em algum momento após o sumiço da aluna, conseguiu falar com Claudiane por telefone e ouviu seu choro desolado ao relatar o assassinato recente da filha.

Mas as histórias sobre a trama que teria levado a essa morte divergem. Na polícia, há um inquérito enviado ao Ministério Público – com suspeito preso e sem pedidos adicionais de investigação – como feminicídio. Nos corredores do colégio, alunas menores de idade, com as quais não pude falar, teriam comentado que havia uma “casinha” armada para Joyce, gíria que significa tocaia ou armadilha, supostamente feita por outra colega.

Em minhas reflexões, penso que as duas histórias não são necessariamente contraditórias, diante das múltiplas violências que fazem parte do cotidiano de uma jovem como Joyce. O revólver do namorado talvez tenha sido, apenas, mais rápido do que a armadilha da colega.

Ao contar a história de Joyce, assassinada em uma boca de fumo por um namorado recente, sabia que teria dificuldade em provocar empatia no leitor. As fotos publicadas aqui talvez não ajudem muito sem uma longa legenda. E me pergunto: “O que eu espero, ao escrever este relato?”.

Ilustração | Metrópoles

Entrevistando uma assistente social que me auxiliou significativamente, ouvi o que me pareceu a melhor resposta: “O trabalho é uma militância, das mais potentes”. E o meu é, essencialmente, perguntar. E quanto mais agudos e sinceros forem os meus questionamentos, e mais incomodarem a você, que me lê, e provocarem em nós, como coletividade, angústia suficiente para buscar respostas, tanto melhor o terei cumprido.

Então, termino a busca por Joyce registrando duas perguntas doídas e absolutamente urgentes:

“Quando será que começamos a achar que nossos preconceitos, nossas ideias e imagens sobre o mundo e as pessoas valem mais do que a própria realidade?” E mais: “O que falta acontecer para que nós, adultos, reconheçamos o quanto estamos perdidos com relação à subjetividade de milhares de jovens, formados por um contexto de múltiplas violências que não somos capazes de compreender e, a partir disso, reconstruir um diálogo real com eles?”.

Marina Oliveira

Marina Oliveira

Jornalista, autora do livro Debaixo dos Ipês: Crônicas Afetivas, lançado em 2018. Foi repórter do Correio Braziliense e da Gazeta Mercantil. Vencedora da 1ª Edição do Prêmio Tim Lopes e finalista do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, de 2004, com caderno sobre abuso sexual. Gestora de políticas públicas no Ministério da Justiça, consultora do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) e da Organização Internacional para Migrações (OIM). Produtora cultural e autora de contos de ficção publicados em blog, filhote de outro, que deu origem ao seu livro de estreia.

Elas por elas

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

Até sexta-feira (18/10/2019), 12.637 mulheres do DF já procuraram delegacias de polícia para relatar abusos, ameaças e agressões que vêm sofrendo por parte de maridos, companheiros, namorados ou pessoas com quem um dia se relacionaram. Já foram registrados 25 feminicídios. Com base em informações da PCDF, apenas uma pequena parte das mulheres que vivenciam situações de violência rompe o silêncio para se proteger.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

Veja os perfis anteriores

  • CÁCIA REGINA

    A mulher assassinada pelo ex-marido com ácido sulfúrico

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  • DEBORA TEREZA

    A mulher assassinada dentro da Secretaria de Educação do DF

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