A dança antiestupro

Vídeo de música e coreografia criadas por militantes chilenas viraliza, inspira mulheres em várias capitais do mundo e deflagra manifestações globais contra o estupro e a violência machista

Crédito: GEOFFROY VAN DER HASSELT / AFP

BASTA! Em Paris, mulheres vão às ruas para se manifestar contra a violência machista (Crédito: GEOFFROY VAN DER HASSELT / AFP)

Luisa Purchio

Foi de arrepiar. Tudo começou com um pequeno grupo de mulheres com roupas irreverentes, olhos cobertos por vendas pretas, marchando firmemente pela rua de Valparaíso, no litoral do Chile, e cantando uma canção de denúncia: “a culpa não era minha, nem onde eu estava, nem como eu me vestia. O estuprador era você. O estuprador é você”. A sincronia da coreografia, estrategicamente pensada, e as vozes em uníssono mostraram que as mulheres são realmente poderosas e capazes de enfrentar os abusos masculinos. A apresentação foi gravada em vídeo e viralizou, tornando-se um hino antiestupro em vários lugares. Alguns dias depois, dez mil pessoas repetiram o canto em frente ao Estádio Nacional em Santiago, capital do país. Em menos de 48 horas, passou a ser ouvida em Buenos Aires, na Cidade do México, Paris, Madri e Sidney. O que era um protesto local ganhou dimensão planetária. No Brasil, elas marcharam por todas as partes. Em São Paulo, centenas de mulheres entoaram o hino no vão do Masp e no Largo da Batata. No Rio de Janeiro, a manifestação aconteceu na Cinelândia e, em Porto Alegre, na Redenção e no Largo Expedicionário, com apoio de umo Centro Acadêmico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A música se chama “El violador eres tu” (“O estuprador é você”) e foi apresentada pela primeira vez na cidade chilena no dia 20 de novembro por militantes feministas. Foi criada pelo coletivo interdisciplinar “Las Tesis”, que traduz em linguagem acessível e artística estudos acadêmicos sobre a violência contra a mulher. A princípio, a letra e a coreografia tinham como objetivo apenas fazer uma apresentação local em meio a uma série de outros eventos realizados no Chile. Mas o grito isolado ganhou força. “Não pensamos nisso como uma música de protesto, era parte do nosso espetáculo performático”, disse Paula Cometa, desenhista, uma das quatro artistas que compõem o grupo. Ao lado dela, fazem parte do coletivo a figurinista Lea Cáceres e as artistas Sibila Sotomayor e Dafne Valdés, todas com 31 anos. A ideia das artistas de criar um hino surgiu quando, em meio aos temas estudados, encontraram a tese de Rita Segato, antropóloga argentina que estuda a desmistificação do estuprador como um sujeito que comete a agressão em busca de prazer sexual e não como uma exibição de poder. Ao se depararem com o tema, o quarteto se impressionou com os altos índices de violência sexual no Chile. E ainda descobriu que as denúncias não são devidamente punidas pela Justiça. A partir daí, vários fatores deram força ao movimento. A manifestação feminista se somou aos protestos sociais que tomam o Chile. O espetáculo de dança, programado para acontecer em um contexto acadêmico no dia 24 de outubro, foi cancelado. Depois, a ideia era fazer a apresentação no dia 25 de novembro, Dia Internacional do Combate à Violência Contra a Mulher. Mas as denúncias de abusos nos protestos no país foram tantas que elas resolveram antecipá-la.

Apesar de fazer referência ao contexto político específico do Chile (em determinado momento, a coreografia se refere à posição que as mulheres devem ficar para serem revistadas pelos policiais e aos abusos que sofrem nessas situações), a música encontrou identificação feminina em todo o mundo. A força estratosférica com a qual cresceu é um reflexo do quanto a mulher se sente oprimida e tem a necessidade de expressar sua indignação através da arte. “Quando o vídeo se torna viral, provavelmente é porque a violência sistemática que os seres-humanos sofrem a partir de estruturas do Estado moderno é viral. E se torna internacional porque, finalmente, é como um grito que cabe a todas nós dar”, diz Patrícia.

REVOLTA No Rio de Janeiro, mulheres cantam o hino antiestupro das chilenas (Crédito:Divulgação)

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onte: IstoÉ